Uma revisão de pesquisas sobre simulações com inteligência artificial na educação médica encontrou resultados favoráveis sobretudo para a comunicação com pacientes e o raciocínio clínico. A prática em ambientes seguros e com feedback individualizado é promissora, mas ainda há pouca evidência sobre habilidades emocionais e coletivas, além de limites metodológicos para avaliar o alcance dos ganhos.
O QUE HÁ DE NOVO: Pesquisadores da Universidade Ibn Zohr, no Marrocos, publicaram em 2025 uma revisão sistemática sobre o uso de simulações com IA na formação médica, da graduação à residência. Entre 1.442 registros identificados em quatro bases de dados, selecionaram 20 estudos realizados em diferentes países, com 2.535 participantes ao todo. O recorte reúne intervenções voltadas a habilidades não técnicas, frequentemente menos enfatizadas do que procedimentos e conhecimentos clínicos.
COMO FUNCIONA: As intervenções incluíram pacientes virtuais com modelos de linguagem, plataformas de cenários clínicos estruturados e robôs sociais. Em dez dos 15 simuladores identificados, o ChatGPT ou variantes desempenhavam o papel de paciente, permitindo que estudantes praticassem entrevistas e respondessem a situações clínicas; outras ferramentas usavam regras predefinidas ou ofereciam feedback sobre decisões e desempenho. A revisão reuniu quatro ensaios randomizados, dez estudos quase experimentais, cinco de métodos mistos e um qualitativo. Conforme o estudo, a avaliação utilizou provas práticas, questionários, entrevistas ou registros das interações.
PRINCIPAIS RESULTADOS: Comunicação foi avaliada em 12 estudos, e raciocínio clínico, em seis; os resultados dessas duas áreas foram, em geral, positivos. Em um ensaio com 421 estudantes, a pontuação média de comunicação foi 0,806 no grupo com simulação e 0,752 no grupo com módulo digital convencional. Em outro, com 56 participantes, o grupo que usou um paciente virtual obteve média de 86,79 em uma avaliação de entrevista clínica e raciocínio, ante 73,64 no grupo de dramatização tradicional.
Também houve resultados favoráveis para empatia, pensamento crítico e autoconfiança em estudos que mediram essas habilidades. A tomada de decisão melhorou em três das quatro pesquisas que a avaliaram, mas não apresentou diferença significativa na quarta. Na única comparação sobre regulação emocional, não houve diferença significativa entre os grupos. Nenhum estudo investigou diretamente trabalho em equipe, liderança ou prática reflexiva.
LIMITAÇÕES E CUIDADOS: Embora 12 dos 20 estudos tenham atendido a todos os critérios da ferramenta de avaliação metodológica usada na revisão, muitos não tinham grupo de comparação. A variedade de intervenções, durações e formas de medir habilidades dificulta comparar os resultados e atribuir os ganhos exclusivamente à IA; a revisão não calculou um efeito conjunto nem avaliou formalmente a certeza geral das evidências. Tampouco está estabelecido se a melhora observada durante o treinamento persiste no atendimento real.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para estudantes de medicina, pacientes simulados podem ampliar as oportunidades de ensaiar conversas difíceis e decisões clínicas sem expor pessoas a riscos. Para docentes, o valor está em usar essas interações como material para feedback e discussão, não em delegar à ferramenta o julgamento sobre competências humanas complexas. Antes de incorporar as simulações ao currículo, instituições precisam considerar acesso à tecnologia, vieses nos cenários e transparência nas avaliações. Estudos multicêntricos, com acompanhamento de longo prazo e momentos de reflexão orientados por professores, são os próximos passos apontados pela revisão.
Fonte: Journal of Educational Evaluation for Health Professions