Um artigo apresentado na conferência ELEARNING2025 analisa como tutores baseados em grandes modelos de linguagem (LLMs) podem oferecer “conforto algorítmico” por meio de frases empáticas que soam humanas, mas não correspondem a emoções reais, e como isso pode reduzir esforço cognitivo, afetar a profundidade emocional e aumentar dependência no estudo, segundo uma pesquisa com 60 universitários na Sérvia.

O QUE HÁ DE NOVO: As pesquisadoras Tamara Vučenović e Marija Maksimović, da Belgrade Metropolitan University, apresentam no ELEARNING2025 o estudo “The Illusion of Understanding”, que conecta o uso crescente de tutores com IA generativa (especialmente ferramentas como o ChatGPT) a um paradoxo observado entre estudantes: ao mesmo tempo em que valorizam eficiência e acessibilidade, muitos desconfiam da “empatia” expressa por chatbots e temem efeitos como dependência cognitiva. O trabalho se apoia em um questionário online aplicado em setembro de 2025 com 60 estudantes de 20 a 25 anos, combinando perguntas fechadas e respostas abertas.

COMO FUNCIONA: O estudo parte do conceito de “mimetismo emocional”, a capacidade de sistemas conversacionais emular acolhimento e compreensão por meio de linguagem afetiva, e discute como isso opera na educação quando o chatbot assume o papel de tutor. Na etapa empírica, as autoras aplicaram um survey anônimo via Google Forms a estudantes com experiência prévia em IA, analisando os dados de forma descritiva e, nas questões abertas, por análise temática para captar percepções sobre uso, confiança e impacto percebido na aprendizagem.

PRINCIPAIS RESULTADOS: Os dados indicam um uso frequente de IA no cotidiano acadêmico: 47% dizem utilizar quase diariamente e 30% ocasionalmente. Sobre a “empatia” do chatbot, 55% descrevem as mensagens como mecânicas e sem impacto, mas 35% relatam que ainda assim gostam delas e as consideram potencialmente motivadoras. Ao comparar com docentes, 57% afirmam que pelo menos às vezes a IA pareceu mais agradável ou compreensível do que o professor, e 47% dizem acreditar parcialmente em frases do tipo “entendo que isso é difícil”, enquanto uma parcela relevante rejeita a sinceridade dessa linguagem. Um sinal importante para políticas institucionais é que 67% defendem incluir “letramento emocional digital” na formação, e parte das respostas abertas sugere que professores também precisariam desenvolver essas competências para orientar o uso.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: O trabalho chama atenção para um ponto sensível da adoção de IA generativa na sala de aula: a experiência do estudante pode ficar mais fluida e acolhedora, mas isso não garante aprendizagem mais profunda. Para a aprendizagem, a hipótese levantada é que a “gentileza programada” pode reduzir fricções produtivas do estudo, aquelas que exigem esforço, elaboração e autonomia, favorecendo atalhos e uma percepção enganosa de domínio do conteúdo. Para o trabalho docente, a comparação feita pelos próprios alunos (IA “mais paciente” do que alguns professores) sugere que a qualidade da mediação humana, feedback, escuta e vínculo, pode virar um diferencial ainda mais central, ao mesmo tempo em que cresce a pressão para que educadores aprendam a lidar com linguagem persuasiva e afetiva de sistemas automáticos.

CONTEXTO E BASTIDORES: As autoras situam o debate no paradigma da Educação 4.0, em que eficiência e automação ganham espaço ao lado de metas como criatividade e pensamento crítico. Elas conectam o fenômeno a discussões já conhecidas sobre “amnésia digital” e “cognitive offloading” (delegação de etapas do pensamento a dispositivos), argumentando que a expansão de tutores conversacionais intensifica esse movimento: quando as respostas estão sempre disponíveis, o incentivo para memorizar, sustentar atenção e argumentar pode diminuir. No pano de fundo, aparece também a tendência de antropomorfização, tratar máquinas como atores sociais, descrita por pesquisas clássicas e atualizada no contexto de chatbots que simulam cuidado e compreensão.

SIM, MAS…: O próprio desenho do estudo limita generalizações: trata-se de uma amostra pequena (N=60), concentrada em estudantes universitários e baseada em autorrelato, sem medidas diretas de desempenho ou testes controlados de aprendizagem. Além disso, parte do argumento sobre “diminuição de atividade criativa e semântica” e efeitos como “demência digital” é sustentada principalmente por literatura e interpretações teóricas, o que reforça a necessidade de estudos longitudinais e comparativos. Ainda assim, o valor do artigo está em organizar sinais práticos que gestores e professores já observam, uso recorrente, sensação de conforto, e dúvidas sobre confiança, em torno de um risco específico: a confusão entre linguagem empática e empatia real.

O QUE VEM DEPOIS: Como resposta, o texto propõe o desenvolvimento de “letramento emocional digital” como estratégia pedagógica para reduzir vulnerabilidades a manipulação afetiva, dependência de tutores e substituição de relações humanas por conforto algorítmico. Para sistemas educacionais, isso aponta para próximos passos concretos: formação docente que inclua psicologia de interfaces e limites do “tom empático” em IA; orientações claras de uso que reforcem verificação, reflexão e autoria; e pesquisa aplicada que teste, em diferentes disciplinas e perfis de estudantes, quando a IA apoia o pensamento e quando o substitui. A mensagem final é que a conveniência pode vir com custos invisíveis, e que as instituições precisam desenhar salvaguardas antes que o “entendo você” automático vire padrão de mediação educacional.

Fonte: The Illusion of Understanding: Digital Empathy and Emotional Mimicry in AI-Driven Education (ELEARNING2025)

Fonte: The Illusion of Understanding: Digital Empathy and Emotional Mimicry in AI-Driven Education (ELEARNING2025)