Um estudo qualitativo com nove coaches profissionais credenciados investigou como esses especialistas enxergam o avanço de “coach bots” baseados em IA generativa e o que isso pode mudar, no curto prazo, na prestação de serviços de coaching, com impactos que dialogam diretamente com educação corporativa, universidades e programas de desenvolvimento de lideranças. As entrevistas indicam um futuro menos de substituição total e mais de modelos híbridos, ao mesmo tempo em que levantam alertas sobre limites éticos, privacidade e a necessidade de padrões de certificação.
O QUE HÁ DE NOVO: A pesquisa, publicada em abril de 2025, entrevistou nove coaches experientes (com credenciais como ICF e EMCC e trajetórias entre 1 e 30 anos) para mapear percepções sobre como coach bots de IA podem afetar o setor. Os participantes, distribuídos por Europa, Reino Unido, EUA/Europa, Ásia e África do Sul, relataram diferentes níveis de familiaridade com a tecnologia, de iniciantes a especialistas que já criaram seus próprios bots. A análise temática identificou quatro eixos: limitações de capacidade dos bots, aumento de acessibilidade, possibilidade de entrega híbrida humano-IA e preocupações éticas.
COMO FUNCIONA: O estudo se baseou em entrevistas semiestruturadas (36 a 71 minutos, média de 53) conduzidas majoritariamente por videoconferência e analisadas por meio de análise temática. A discussão parte do entendimento de que coach bots são intervenções estruturadas de “máquina para humano”, em geral via texto, baseadas em modelos de linguagem e técnicas de processamento de linguagem natural; diferem do “coaching digital” tradicional, que usa tecnologia para facilitar interações humano-humano. A partir dos relatos, emergem cenários de adoção em que a IA pode atuar como coach em atividades mais transacionais (por exemplo, perguntas abertas e acompanhamento de metas) ou como componente de um serviço combinado com sessões humanas.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Embora o foco seja o mercado de coaching, as conclusões atingem em cheio iniciativas educacionais de desenvolvimento profissional, como programas de liderança, mentoria, tutoria e formação continuada em empresas e instituições de ensino superior. A promessa de acesso 24/7 e custos menores sugere expansão de escala em trilhas de aprendizagem e acompanhamento individual, o que pode ampliar o alcance de apoio a estudantes e profissionais em contextos com escassez de mentores/coaches. Ao mesmo tempo, os coaches entrevistados afirmam que a “presença humana” e atributos como empatia, intuição e leitura contextual seguem centrais para conversas de maior complexidade, indicando que a qualidade educacional pode depender de desenho pedagógico cuidadoso: o bot como apoio e não como substituto integral em situações de desenvolvimento socioemocional e tomada de decisão sensível.
INSIGHT CENTRAL: O ponto mais distintivo do estudo é que os entrevistados não descrevem um único “futuro do coaching com IA”, mas um portfólio de arranjos híbridos. O bot pode funcionar como parceiro de responsabilização entre sessões, como assistente durante sessões (por exemplo, ajudando a registrar metas e prompts de reflexão) ou, em um cenário mais ambicioso, como um sistema capaz de captar sinais não verbais e mudanças fisiológicas para apoiar o trabalho do coach humano. Essa visão desloca o debate de “IA versus humano” para “quais partes do processo são automatizáveis” e quais devem permanecer sob responsabilidade humana por exigirem julgamento, vínculo e manejo ético.
PRINCIPAIS RESULTADOS: Todos os nove coaches ressaltaram limites atuais dos bots para lidar com nuances humanas, especialmente empatia, ironia e leitura de contexto, mas parte deles reconheceu que a IA pode se sair bem, ou até melhor do que humanos, em tarefas técnicas como formular perguntas “corretas”, apoiar gestão do processo e manter rotinas de acompanhamento. Os participantes também sugeriram que coach bots podem ameaçar coaches iniciantes ou de baixa performance, enquanto profissionais mais experientes tenderiam a se diferenciar em atividades de maior complexidade. Em acessibilidade, seis entrevistados destacaram a vantagem de disponibilidade contínua, com ambivalência: pode complementar o serviço humano, mas também gerar dependência. Em custos, os relatos apontam pressão por preços mais baixos e até encerramento de contratos, ao mesmo tempo em que aparece a hipótese de um “prêmio” para coaching humano em segmentos que valorizem qualidade.
SIM, MAS…: As preocupações éticas apareceram como um bloco próprio: privacidade e confidencialidade de dados inseridos em sistemas que aprendem com interações; risco de vazamentos e uso indevido; e dúvidas sobre como bots lidariam com dilemas éticos e com a fronteira entre coaching e terapia. Outro ponto sensível é o incentivo ao antropomorfismo, a tendência de usuários atribuírem atributos humanos ao sistema,, que pode aprofundar vínculos inadequados e ampliar o risco de dependência em interações 24/7. Para ambientes educacionais e corporativos, isso se traduz em necessidade de governança: transparência sobre coleta/armazenamento, opção de recusa e protocolos de encaminhamento para suporte humano especializado quando o caso exigir.
O QUE VEM DEPOIS: O estudo recomenda que coaches explorem formatos híbridos e que entidades profissionais desenvolvam diretrizes claras para uso ético de coach bots, incluindo padrões de competência e certificação, tanto para ferramentas quanto para profissionais que as utilizam. Em termos de pesquisa, os autores apontam como prioridade entender a perspectiva dos clientes/usuários e investigar experiências em que a IA atua como assistente durante sessões, um cenário ainda pouco examinado. Para organizações educacionais que contratam coaching ou implementam “tutores” de IA, a mensagem é pragmática: a escala prometida pela tecnologia só será sustentável se vier acompanhada de regras explícitas de segurança, limites de atuação e desenho de serviço que preserve responsabilidade humana onde há maior risco pedagógico e emocional.