RESUMO: A implementação de um plano institucional de inteligência artificial generativa (IA generativa) em uma universidade espanhola foi acompanhada por avanço nas percepções de docentes sobre conhecimento, utilidade e necessidade de aprender a tecnologia. A experiência indica que formação estruturada, diretrizes de uso responsável e atividades práticas podem acelerar a preparação do corpo docente, embora ainda não demonstre efeitos diretos sobre a qualidade do ensino ou a aprendizagem dos estudantes.

O QUE HÁ DE NOVO: A Universidad Alfonso X el Sabio (UAX), na Espanha, comparou respostas dos mesmos 180 professores em dois anos letivos, antes e depois de ações de seu Plano Institucional de IA Generativa 2023–2025. A iniciativa reuniu formação obrigatória e optativa, oficinas e orientações institucionais; entre janeiro de 2023 e maio de 2025, 1.300 docentes foram convidados para a certificação, e 65% participaram de ao menos uma atividade.

COMO FUNCIONA: O plano combinou uma certificação docente de nível II com conteúdos sobre fundamentos da IA generativa, ética, privacidade, integridade acadêmica e aplicações pedagógicas. O módulo obrigatório passou a ter três horas, distribuídas entre atividades on-line assíncronas e oficinas presenciais ou síncronas, nas quais os participantes trabalhavam com elaboração de comandos, criação de materiais, atividades alinhadas à taxonomia de Bloom e estratégias de avaliação. A pesquisa usou questionários aplicados ao mesmo grupo antes e após as ações, medindo em escala de zero a dez o conhecimento percebido, o impacto esperado da IA sobre as profissões e a importância de aprender as ferramentas para a formação estudantil.

PRINCIPAIS RESULTADOS: O conhecimento declarado sobre IA generativa subiu, em média, de 4,82 para 7,06 pontos, uma diferença estatisticamente significativa e de grande magnitude. A percepção de que a tecnologia afetará o futuro profissional dos estudantes avançou de 7,97 para 8,67, enquanto a importância atribuída à aprendizagem dessas ferramentas chegou a 8,63, alta de 0,56 ponto. Também cresceu a parcela que prevê transformação na própria docência, alcançando 80,9%, e as respostas que indicavam nenhum uso de IA caíram de 54,38% para 10,42%; como houve muitas lacunas nas questões de uso, porém, essa comparação foi tratada apenas de forma descritiva.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: O estudo reforça que a adoção de IA na educação superior depende menos da simples disponibilização de plataformas e mais da capacidade de professores interpretarem seus limites e aplicações. Para a sala de aula, a formação pode favorecer materiais mais adaptáveis, revisão de avaliações e práticas que preservem pensamento crítico. Para a gestão universitária, o caso sugere que políticas articuladas, currículo, orientação ética, desenvolvimento profissional e apoio operacional, ajudam a reduzir improvisações. Há ainda uma relação relevante para a empregabilidade: docentes que percebiam maior impacto da IA nas profissões tendiam a considerar mais necessária sua incorporação à formação dos alunos.

LIMITAÇÕES E CUIDADOS: A pesquisa não distribuiu participantes aleatoriamente nem teve grupo de comparação, portanto não permite concluir que o plano foi a única causa das mudanças observadas. A amostra final correspondeu a 16,6% dos 1.080 docentes que poderiam responder às duas etapas, o que pode concentrar pessoas já mais interessadas no tema. Além disso, os indicadores refletem autopercepções e uma escala curta, não observações de aulas, produtos pedagógicos ou resultados de aprendizagem. A satisfação elevada com as oficinas e a certificação também não equivale, por si só, à transferência consistente das competências para a prática.

PRÓXIMOS PASSOS: Para transformar percepção em evidência educacional mais robusta, a universidade precisará acompanhar como os conhecimentos adquiridos chegam às disciplinas, às avaliações e às experiências dos estudantes. Isso inclui examinar produtividade docente, qualidade do feedback, aprendizagem, satisfação discente e possíveis diferenças entre áreas e perfis de professores. A demanda relatada por aprofundamento em integração pedagógica, produção de conteúdo, avaliação, ética, vieses e desenvolvimento técnico aponta que a alfabetização em IA não se encerra em um curso inicial: ela requer atualização contínua, regras claras e condições para que a tecnologia complemente, em vez de substituir, o julgamento profissional docente.

Fonte: Analysis of teachers’ perceptions of the impact of Generative Artificial Intelligence in higher education