Um estudo com universitários na Coreia do Sul investigou como a colaboração com IA generativa em um concurso de criação de conteúdo digital afeta habilidades criativas. Ao comparar uma turma que trabalhou com GenAI sob regras de edição e refinamento com outra que usou apenas ferramentas digitais tradicionais, a pesquisa encontrou vantagem específica para a resolução criativa de problemas, além de relatos de ganhos de eficiência e de preocupações éticas sobre limites e autoria.
O QUE HÁ DE NOVO: A pesquisa avaliou, em contexto real de produção multimodal (imagens e vídeos), o que muda quando estudantes são orientados a tratar a IA generativa como parceira de coautoria, e não como geradora de um “produto pronto”. Participaram 71 alunos de Letras (24 no grupo experimental e 47 no grupo comparativo), em duas disciplinas com o mesmo conteúdo e o mesmo docente: uma voltada a “prompt literacy” com uso de GenAI e outra de “digital literacy” sem GenAI. O desempenho foi medido antes e depois da intervenção, focando em resolução criativa de problemas e curiosidade criativa, além de questionários e relatos reflexivos sobre a experiência de colaboração humano‑IA.
COMO FUNCIONA: Os estudantes produziram peças para concursos de conteúdo digital com mensagens de solução de problemas socioculturais, em formatos de pôster e vídeo com requisitos técnicos definidos (por exemplo, resolução mínima em vídeo e formatos de arquivo de imagem). No grupo com GenAI, a regra central era a agência humana: era proibido submeter saídas “cruas” da IA; os alunos tinham de registrar prompts, explicar como iteraram, combinaram e editaram resultados e demonstrar modificações substantivas (por exemplo, roteiro discutido com ChatGPT e edição posterior em ferramentas de vídeo; imagens geradas em modelos text‑to‑image e finalização com inserção manual de texto e composição). A seleção de ferramentas priorizou acessibilidade, multimodalidade e critérios éticos, e parte das submissões teve revisão adicional por um avaliador independente para checagem de consistência.
PRINCIPAIS RESULTADOS: Nos testes pré e pós, os dois grupos melhoraram em resolução criativa de problemas e em curiosidade criativa, sugerindo que a própria atividade de criação com foco em problemas já impulsiona esses indicadores. Mas, ao controlar diferenças iniciais (ANCOVA), a condição de “prompt literacy” com GenAI foi mais efetiva para elevar a resolução criativa de problemas (F(1,68)=6,48; p=0,013), enquanto não houve efeito estatisticamente significativo para curiosidade criativa (F(1,68)=1,47; p=0,23). Nos questionários do grupo com GenAI, os alunos indicaram que a IA ajudou a conectar ideias (média 4,19 em escala tipo Likert), a se sentirem mais criativos (4,12) e, sobretudo, a perceber a importância de saber escrever prompts e iterar (4,65), associando a experiência a “criatividade emergente” (4,35). Relatos qualitativos reforçaram o papel da IA como catalisador para sair de bloqueios criativos e explorar perspectivas inesperadas, ao mesmo tempo em que apontaram limites quando a intenção humana era muito específica ou original.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para a sala de aula, o estudo sugere que o ganho não está apenas em “ter IA”, mas em desenhar tarefas que obriguem a revisão, justificativa e reautoria, deslocando o uso da GenAI de atalho para um processo de pensamento. Na prática docente, isso se traduz em rubricas que avaliem o processo (iterações, decisões de edição, coerência com objetivos) e não só o artefato final, além de criar espaço para reflexão crítica sobre qualidade, adequação e veracidade de saídas geradas. Para a gestão acadêmica, os achados apontam um caminho de avaliação compatível com competências contemporâneas: projetos multimodais e orientados a problemas podem capturar dimensões de aprendizagem que provas predominantemente verbais não medem bem, especialmente em cursos de humanas.
SIM, MAS…: A pesquisa também mostra que a colaboração com GenAI traz fricções e riscos que precisam ser endereçados institucionalmente. Estudantes relataram dificuldades iniciais de escolha de ferramentas e de elaboração de prompts, além de inconsistências na qualidade de resultados visuais e preocupação com imprecisões e saídas fora de contexto. No plano ético, apareceram receios de mau uso, dúvidas sobre originalidade e debates sobre direitos autorais e atribuição de autoria em trabalhos cocriados. Há ainda limitações metodológicas: amostra relativamente pequena (N=71) e um contexto específico (um curso e um departamento), o que reforça a necessidade de replicações e de estudos longitudinais para verificar efeitos de longo prazo e em outros perfis de estudantes.
O QUE VEM DEPOIS: Os autores indicam que futuras pesquisas devem explorar mais profundamente os mecanismos cognitivos e metacognitivos de “inteligência híbrida”, como pensamento crítico, autorregulação e tomada de decisão ética quando a IA entra no fluxo criativo. Também defendem expandir o tipo de tarefa além de criação de conteúdo digital, incluindo projetos de pesquisa colaborativa, simulações e problemas interdisciplinares, além de ampliar amostras e duração para estimar melhor ganhos sustentados. Para universidades que buscam políticas de integração de GenAI, o recado central é que “prompt literacy” pode ser tratada como competência curricular: não para terceirizar a criatividade, mas para manter a agência humana no centro de processos de co-criação.
Fonte: Exploring students’ experiences and perceptions of human-AI collaboration in digital content making