Uma monografia da Uergs relata o uso de ChatGPT e Gemini para apoiar o planejamento de aulas de teatro na Fundarte, em Montenegro (RS), e mostra um achado recorrente em experiências com IA generativa na educação: a ferramenta acelera o acesso a ideias, mas tende a repetir propostas “padrão” e só se torna útil quando passa por curadoria pedagógica e pelo conhecimento situado do docente e da turma.
O QUE HÁ DE NOVO: O trabalho de conclusão de curso em Teatro (Licenciatura) descreve uma experiência de 2025 em que a autora, como professora estagiária, recorreu a ferramentas de IA generativa, ChatGPT e Gemini, para montar planos de aula, sugerir jogos teatrais e, em alguns momentos, gerar textos ou estruturas de cenas. A pesquisa foi realizada na Fundação Municipal de Artes de Montenegro (Fundarte), com turmas pequenas (em geral, quatro estudantes, entre 12 e 14 anos) e aulas semanais de 1h40, em um contexto de alta carga de trabalho da docente (mais de 50 horas semanais somando funções em duas instituições) e insegurança típica do início da prática docente.
COMO FUNCIONA: A estratégia central consistiu em formular prompts com informações sobre idade dos estudantes, duração da aula, objetivos (por exemplo, improvisação) e restrições de material (como “apenas um banco e uma bolinha”), usando as respostas como ponto de partida para planejar encontros e atividades. A monografia apresenta exemplos concretos de pedidos às ferramentas e compara as devolutivas: planos de aula com aquecimento, jogos como “Sim, e…”, variações de improviso e sugestões de fechamento com feedback. Ao longo do processo, a autora descreve um ciclo de tentativa e ajuste: quando as respostas vinham repetitivas ou pouco alinhadas ao histórico do grupo, ela refinava o prompt, pedia listas maiores, selecionava trechos e adaptava à realidade da turma, ou decidia abandonar a IA e construir a proposta a partir da observação presencial.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: O relato ilumina um ponto sensível para redes e escolas que cogitam “padronizar” o uso de IA: em áreas como artes e teatro, o planejamento depende não só de conteúdo, mas de clima, confiança, disponibilidade corporal e dinâmica do grupo, variáveis que os modelos não capturam. No curto prazo, a IA pode reduzir o tempo gasto na busca por repertório e ampliar o leque de exercícios, especialmente para docentes iniciantes; mas o texto sugere que, sem intencionalidade e mediação, há risco de empobrecimento pedagógico por repetição de atividades, além de deslocar o professor para um papel de executor de roteiros genéricos. A monografia também traz um alerta sobre o uso estudantil de IA para “resolver” tarefas (como redações), apontando perda de protagonismo e de reflexão quando a ferramenta vira atalho.
INSIGHT CENTRAL: A pesquisa propõe que a eficácia da IA no planejamento não está em “entregar a aula pronta”, e sim em funcionar como banco de possibilidades submetido a um filtro humano: o repertório teatral, a memória de práticas já vividas, a leitura do que engaja ou trava um grupo e a compreensão do que faz sentido ética e pedagogicamente. Quando esse filtro existe, a IA opera como ampliação; quando ele falta, a promessa de agilidade pode se tornar ilusória, já que o professor gasta tempo “garimpando” entre respostas comuns e repetidas até encontrar algo aplicável.
EXEMPLOS NA PRÁTICA EDUCACIONAL: O texto descreve uma virada pedagógica em que a criação cênica ganhou força justamente quando a docente suspendeu a mediação por telas e retomou estratégias sensoriais e presenciais: apagar as luzes, alterar o espaço, introduzir música de tensão e propor improvisações de solidão e encontro em um “quarto escuro”. O processo incluiu experimentações com um banco no centro da sala, entradas individuais de curta duração e uma etapa coletiva de aproximação marcada por medo, recuo e tentativa de confiar. Em outra dinâmica, bastões criaram uma espécie de “dança-luta” que exigia atenção ao outro e ao tônus corporal, gerando material para reflexão sobre densidade emocional e recepção do público (incluindo familiares).
SIM, MAS…: A monografia enfatiza riscos e limites que gestores precisam considerar antes de escalar práticas similares: o uso de celulares em aula pode quebrar o estado de jogo e virar distração; as respostas das ferramentas tendem a reciclar exercícios amplamente difundidos e não “entendem” o histórico do grupo, inclusive o que já foi feito por meses ou o que não funcionou. No plano ético e estrutural, o texto recorre a recomendações e alertas sobre IA generativa, como vieses e homogeneização de perspectivas, uso de conteúdo sem consentimento, desigualdades de acesso e a circulação de desinformação e deepfakes, temas que pedem políticas claras de uso e formação crítica, especialmente em contextos que valorizam diversidade de vozes.
O QUE VEM DEPOIS: Como implicação prática, o trabalho sugere que a adoção responsável de IA na arte-educação depende de protocolos de uso: prompts mais contextualizados, registro do que já foi aplicado, critérios de seleção (adequação etária, objetivos, progressão de dificuldade), além de acordos para reduzir a dependência de telas durante o encontro presencial. Também aponta uma agenda de formação docente que trate a IA como instrumento de apoio, não de substituição, e que fortaleça a capacidade de leitura de turma, de adaptação em tempo real e de reflexão ética sobre autoria, autenticidade e o lugar da experiência humana em processos criativos.