RESUMO: Simulações clínicas apoiadas por inteligência artificial (IA), especialmente pacientes virtuais conversacionais baseados em modelos de linguagem, estão associadas a avanços em habilidades não técnicas de estudantes de medicina. A síntese disponível sugere ganhos em comunicação e raciocínio clínico, mas a diversidade de métodos, ferramentas e métricas impede conclusões definitivas sobre todos os efeitos e reforça a necessidade de implementação com supervisão humana.
O QUE HÁ DE NOVO: A revisão sistemática reuniu 20 estudos publicados até julho de 2025, realizados em 11 países e envolvendo 2.535 alunos de medicina, internos e residentes. Dos 1.442 registros inicialmente localizados em PubMed, ScienceDirect, Scopus e Web of Science, apenas 15 atenderam aos critérios, aos quais se somaram cinco achados por busca manual; o conjunto examinou 15 simuladores orientados por IA e seus efeitos sobre competências interpessoais, cognitivas e socioemocionais.
COMO FUNCIONA: As intervenções colocam o aprendiz diante de pacientes virtuais, robôs sociais ou cenários clínicos digitais que respondem às perguntas, escolhas e condutas durante o atendimento simulado. Sistemas baseados em ChatGPT e outras variantes de modelos de linguagem de grande porte foram predominantes, presentes em 10 dos 15 simuladores,, enquanto plataformas de regras e realidade virtual estruturavam outros casos. Os participantes podiam entrevistar pacientes, formular hipóteses, tomar decisões e receber feedback adaptado ao desempenho; os estudos mediram resultados por avaliações clínicas estruturadas, questionários, testes baseados em cenários, entrevistas e, em alguns casos, análise automatizada.
PRINCIPAIS RESULTADOS: Comunicação foi a competência mais investigada, em 12 estudos, e em geral apresentou melhora; o raciocínio clínico apareceu em seis trabalhos e avançou em todos eles. Também houve resultados favoráveis para pensamento crítico, empatia, autoconfiança e resolução de problemas. Em um ensaio com alunos do quinto ano, por exemplo, o grupo que praticou com GPT-4 obteve média de 86,79 em coleta de história clínica e raciocínio, ante 73,64 no grupo de dramatização tradicional. A tomada de decisão melhorou em três dos quatro estudos que a avaliaram, mas um estudo não encontrou diferença entre simulação computacional e aulas expositivas para diagnóstico e prescrição de antibióticos.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: O resultado aponta uma possibilidade de ampliar a prática deliberada de conversas difíceis, coleta de informações e decisões sob incerteza sem expor pacientes reais a riscos. Para docentes e escolas médicas, a IA pode oferecer cenários repetíveis, acesso sob demanda e devolutivas individualizadas, complementando laboratórios e avaliações presenciais. Essa escala, contudo, não equivale por si só a qualidade pedagógica: currículo, debriefing e critérios de avaliação precisam preservar a dimensão humana do cuidado e evitar que fluência na interação com uma máquina seja confundida com competência profissional em contextos reais.
LIMITES E CUIDADOS: A revisão encontrou grande variação entre desenhos de pesquisa, tipos de simulador e instrumentos usados para medir as habilidades, e diversos estudos não tinham grupo de comparação, o que limita atribuir os ganhos exclusivamente à IA. Doze trabalhos cumpriram todos os critérios de qualidade metodológica aplicados, mas cinco atenderam apenas parte deles. Além disso, regulação emocional foi examinada uma única vez, sem diferença significativa entre grupos, e não houve estudos sobre trabalho em equipe, liderança, reflexão ou prática reflexiva. Viés algorítmico, transparência dos sistemas, privacidade e desigualdade de acesso também permanecem questões decisivas para adoção institucional.
PRÓXIMOS PASSOS: A agenda indicada pelos achados inclui estudos maiores, multicêntricos, com acompanhamento de longo prazo, grupos de controle robustos e métricas mais comparáveis para habilidades não técnicas. A aplicação mais consistente tende a ser híbrida: a simulação pode personalizar a exposição a casos e registrar trajetórias de aprendizagem, enquanto professores conduzem a discussão crítica, trabalham emoções e contextualizam decisões éticas e relacionais. Para gestores de formação em saúde, a prioridade é testar se os ganhos observados no ambiente digital se mantêm na prática clínica e alcançam estudantes com diferentes condições de acesso.