Um estudo com docentes de um curso de Pedagogia em uma universidade pública de Fortaleza revela um cenário ambivalente em relação ao uso de inteligência artificial (IA) na produção acadêmica: poucos utilizam as ferramentas de forma sistemática, a maioria se sente pouco preparada para orientar os estudantes e ganham força tanto o reconhecimento de benefícios quanto o receio por impactos na autonomia, criatividade e ética na formação docente.

O QUE HÁ DE NOVO: A pesquisa qualitativa analisou as percepções de 22 professores de um curso de Pedagogia de uma universidade pública em Fortaleza, no Ceará, sobre o uso de IA em trabalhos acadêmicos. Os docentes responderam, entre outubro e novembro de 2024, a um questionário on-line com 20 questões sobre familiaridade com ferramentas, formas de uso, benefícios percebidos, riscos e necessidades de formação. O estudo, que torna público o instrumento e a base de dados em repositório aberto, mostra como esse grupo de formadores de futuros professores vem reagindo à expansão rápida de sistemas como ChatGPT, tradutores automáticos e aplicativos de apoio à escrita e à organização do trabalho acadêmico.

COMO FUNCIONA: Os autores adotaram um desenho qualitativo, descritivo e transversal, com foco em compreender valores, atitudes e experiências, mais do que medir prevalências ou efeitos causais. O questionário, elaborado no Google Forms, foi enviado a cerca de 90 docentes do curso e obtiveram-se 22 respostas completas, de professores em efetivo exercício na graduação em Pedagogia. O instrumento passou por pré-teste com dois docentes, que sugeriram ajustes em afirmações antes da aplicação final.

As questões abarcaram perfil sociodemográfico, trajetória acadêmica, conhecimento e uso de IA, experiências de formação, além de percepções sobre impacto na aprendizagem, criatividade, autonomia, ética e possibilidade de substituição da orientação acadêmica. As respostas foram organizadas em planilha e submetidas à análise de conteúdo de Bardin, em três etapas: leitura flutuante, codificação em unidades temáticas por frequência e significado, e interpretação crítica à luz de literatura recente e de diretrizes internacionais, como o guia da Unesco sobre IA generativa na educação.

INSIGHT CENTRAL: O ponto-chave do estudo é mostrar que, mesmo entre professores altamente qualificados, com mestrado, doutorado e pós-doutorado,, a apropriação pedagógica da IA ainda é restrita e atravessada por insegurança. Não se trata de um simples desconhecimento tecnológico, mas de uma tensão entre a percepção de que as ferramentas podem agilizar tarefas e apoiar a escrita, e o receio de que isso esvazie o esforço intelectual dos estudantes, enfraqueça o trabalho de orientação e banalize a autoria em trabalhos de conclusão de curso.

Essa ambivalência aparece como um “pulo do gato” conceitual: os professores reconhecem que a IA já está presente no cotidiano dos alunos, mas, por falta de formação específica e de políticas institucionais claras, tendem a adotar uma postura defensiva ou pouco estruturada. Em vez de se apoiar em estratégias didáticas que ensinem a usar IA de modo crítico, ético e transparente, muitos oscilam entre proibir, tolerar ou ignorar o seu uso, deixando um vácuo regulatório e pedagógico justamente na formação inicial de futuros docentes.

PRINCIPAIS RESULTADOS: O perfil dos participantes indica um corpo docente experiente e com alta titulação: a maioria tem mestrado ou doutorado, alguns com pós-doutorado, e tempo de atuação que chega a mais de 25 anos. Apesar disso, apenas uma minoria utiliza IA de forma declarada em sua rotina acadêmica. Seis docentes mencionaram o uso de ferramentas para apoio à produção de textos, gestão de tempo ou aprimoramento de escrita, com destaque para tradutores automáticos (DeepL, Google Tradutor) e geradores de respostas (ChatGPT, ChatPDF, Perplexity, Copy.ai). Plataformas de organização, como Google Agenda e Trello, também aparecem, mas ferramentas voltadas à correção gramatical e aprendizagem de idiomas são pouco exploradas.

No campo da formação, nove professores relataram ter participado de cursos, oficinas ou webinários sobre IA, enquanto 13 nunca tiveram oportunidade de capacitação específica. O nível de conforto para usar IA em orientação e produção acadêmica divide o grupo: oito se sentem confortáveis, nove adotam uma posição neutra e cinco se dizem desconfortáveis. A maioria associa esse incômodo à falta de formação sistemática e à ausência de diretrizes institucionais. Quando questionados sobre efeitos educativos, 14 docentes percebem uso inadequado de IA como fator de prejuízo à aprendizagem, 17 temem a redução da criatividade estudantil e 15 apontam riscos à autonomia intelectual e ao pensamento crítico, especialmente em trabalhos de conclusão de curso.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: A pesquisa ilumina um ponto sensível para quem toma decisões em políticas de formação inicial de professores: a defasagem entre a velocidade de adoção da IA pelos estudantes e a capacidade das instituições de preparar docentes para mediar esse uso. Em sala de aula, isso se traduz em dificuldades para propor atividades que usem IA de forma produtiva, com critérios claros de autoria, citação e checagem de fontes, e ao mesmo tempo desencorajem o mero “copiar e colar” de respostas geradas por algoritmos.

No trabalho docente, a falta de formação e de políticas internas deixa cada professor isolado na tarefa de definir regras, lidar com casos de uso indevido e equilibrar inovação com exigência de rigor acadêmico. A geração atual de pedagogos em formação tende a levar essas práticas para a educação básica; se não forem formados para usar IA de modo crítico, podem reproduzir, nas escolas, tanto a dependência acrítica das ferramentas quanto atitudes proibicionistas que desperdiçam seu potencial pedagógico. No plano da gestão, o estudo sugere que universidades precisam estabelecer orientações institucionais, investir em formação continuada e incluir ética e IA como temas curriculares, sob risco de ampliar desigualdades de acesso e tratamento entre cursos e redes.

SIM, MAS… (limitações e riscos): Os próprios autores reconhecem que os achados não são generalizáveis para todo o ensino superior brasileiro: trata-se de um curso específico, em uma única universidade pública, com 22 respondentes de um universo aproximado de 90 docentes. A amostra reduzida e a concentração regional podem não refletir a diversidade de contextos e infraestruturas tecnológicas de outras instituições, especialmente privadas ou situadas em realidades socioeconômicas distintas.

Ainda assim, o estudo aponta riscos que extrapolam o caso analisado. Professores relatam temor de que a IA estimule plágio, reduza o tempo investido em leitura e estudo aprofundado e mascare desigualdades de acesso a dispositivos, internet e fluência digital. Há preocupação com a qualidade, os vieses e a opacidade das respostas produzidas por sistemas generativos, além de dúvidas sobre proteção de dados e sobre a “despersonalização” do ensino quando a mediação humana é substituída por chatbots. Sem estratégias de formação e regulação, a pressão por uso de IA pode aumentar a carga de trabalho docente, que passa a cuidar, sozinho, da detecção de uso indevido, da revisão crítica de textos gerados por máquinas e da gestão de conflitos éticos nas turmas.

O QUE VEM DEPOIS: A pesquisa indica caminhos concretos para políticas e novas investigações. Do ponto de vista institucional, os professores defendem a criação de módulos curriculares, oficinas e espaços de debate sobre ética, autoria e uso crítico de IA, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Também sugerem a elaboração de normas claras sobre como as ferramentas podem ser usadas em trabalhos acadêmicos, como declarar o uso de IA, como avaliar produções mediadas por tecnologias e quais limites devem ser observados em avaliações somativas, como TCCs.

Para a agenda de pesquisa, os autores propõem replicar o estudo em outros cursos e universidades, comparar percepções entre áreas de conhecimento e investigar o efeito de programas de formação em IA na prática docente e na qualidade da produção acadêmica. Há ainda espaço para estudos longitudinais que acompanhem, ao longo de anos, como a familiaridade com IA, as diretrizes institucionais e a infraestrutura tecnológica impactam a autonomia, a criatividade e o desempenho de estudantes. Para gestores e formuladores de políticas, a mensagem é clara: a IA já é parte do cotidiano acadêmico, e ignorá-la ou tratá-la apenas como ameaça tende a piorar, não a resolver, os desafios que ela traz para a formação docente.

Fonte(s): O uso de Inteligência Artificial na produção acadêmica: o que pensam os pedagogos?