Um estudo cientométrico mapeou quase quatro mil artigos sobre treinamento por simulação na educação médica universitária e encontrou forte crescimento desde 2010, com liderança de países desenvolvidos e uma agenda emergente que inclui simulação por computador e inteligência artificial. Para gestores e docentes, o trabalho ajuda a identificar temas consolidados, lacunas de evidência e prioridades para investimento e desenho curricular com foco em competência clínica e segurança do paciente.

O QUE HÁ DE NOVO: Publicado na Revista Brasileira de Educação Médica, o estudo analisou 3.968 artigos indexados na Scopus sobre treinamento por simulação (TS) na educação médica em universidades, cobrindo o período de 1968 a 2024. Os autores identificaram aumento contínuo da produção científica, com mais de 100 publicações anuais a partir de 2010 e pico recente citado em 2023,, além de apontar os principais países, periódicos e “hotspots” (temas mais recorrentes) que estruturam o campo.

COMO FUNCIONA: A equipe realizou uma busca ampla na Scopus com combinações de termos associados a simulação em saúde (como simulação de alta e baixa fidelidade, paciente padronizado, manequins, realidade virtual e simulação por computador), restringindo a “educação médica” e ao contexto de “universidades” e excluindo “enfermagem”; depois, filtrou os resultados para artigos em inglês. Os metadados (autores, afiliações, periódicos, palavras-chave e citações) foram organizados no Excel e analisados no VOSviewer, com técnicas de coocorrência (para mapear temas por palavras-chave), cocitação (para identificar trabalhos influentes) e análise de “burst” (para detectar tópicos em ascensão).

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Ao consolidar tendências e concentração geográfica da pesquisa, o levantamento oferece um “mapa de navegação” para decisões curriculares e de infraestrutura em cursos de Medicina: evidencia a centralidade da competência clínica, de estágios e residências, e de formatos digitais de simulação, elementos diretamente ligados à aprendizagem prática e à redução de erros. Para o trabalho docente, a mensagem é que a simulação tende a se expandir como componente estruturante, mas sua eficácia depende de desenho pedagógico, equipes preparadas e recursos consistentes, evitando que a variabilidade de implementação comprometa resultados. Para a gestão, o desequilíbrio entre países sugere que políticas de fomento e cooperação são relevantes para produzir evidências em contextos locais e reduzir dependência de modelos importados.

PRINCIPAIS RESULTADOS: Entre os achados, os Estados Unidos aparecem como principal polo de publicações no tema (1.545 artigos), seguidos por Canadá (328) e Reino Unido (298), além de Alemanha e Austrália, com redes colaborativas concentradas na América do Norte, Europa e Oceania. Os artigos foram distribuídos em 1.225 periódicos, com destaque para o BMC Medical Education como o que mais publicou. Na análise de palavras-chave (12.867 termos), tópicos amplos como “educação médica”, “educação”, “estudantes de Medicina” e “competência clínica” despontam, e a análise de tendências aponta crescimento de temas como simulação por computador, treinamento cirúrgico, ressuscitação e, mais recentemente, inteligência artificial.

CONTEXTO E BASTIDORES: O artigo conecta a expansão do TS a transformações pedagógicas nos currículos da saúde, como metodologias ativas e aprendizagem pela prática, e à agenda de segurança do paciente, frequentemente citada como justificativa para treinar cenários complexos em ambiente controlado. Também atribui parte do crescimento ao avanço tecnológico, que ampliou o repertório de ferramentas (de manequins a ambientes virtuais) e, por consequência, as possibilidades de pesquisa e avaliação em educação médica.

SIM, MAS…: Os autores reconhecem limitações importantes: a base usada foi apenas a Scopus, sem triangulação com Web of Science ou PubMed; o recorte excluiu literatura cinzenta e artigos em outros idiomas, o que pode reforçar vieses de publicação e subrepresentar países não anglófonos. Além disso, análises por palavras-chave tendem a perder tópicos emergentes ainda pouco frequentes, o que é especialmente relevante quando o campo começa a incorporar rapidamente IA, realidade virtual e impressão 3D.

INSIGHT CENTRAL: A principal contribuição do estudo é tratar o treinamento por simulação como um campo “holístico” no contexto universitário, indo além de subtemas isolados (como apenas realidade virtual ou apenas cirurgia) para mostrar como currículo, avaliação, competência clínica e tecnologias digitais se organizam como um ecossistema de pesquisa. Nesse panorama, a IA aparece menos como um bloco consolidado de evidências e mais como fronteira de crescimento, sugerindo que a corrida tecnológica pode estar à frente das discussões pedagógicas e éticas que deveriam acompanhá-la.

O QUE VEM DEPOIS: O trabalho aponta como desafio para pesquisas futuras identificar sob quais condições o TS é mais eficaz na graduação em Medicina, e como métodos “mais inteligentes” podem elevar essa eficácia sem sacrificar aspectos centrais do cuidado, como comunicação e decisão clínica contextualizada. Na prática, isso implica replicar estudos em diferentes realidades institucionais, medir resultados além de satisfação (por exemplo, desempenho clínico e processos de debriefing) e aprofundar a discussão sobre uso responsável de IA em simulações de alta fidelidade.

fonte: Treinamento por simulação em medicina: uma investigação cienciométrica de artigos indexados na Scopus

Fonte: Treinamento por simulação em medicina: uma investigação cienciométrica de artigos indexados na Scopus