Um estudo com estudantes universitários de quatro países latino-americanos indica que o desenvolvimento de pensamento complexo e a alfabetização em inteligência artificial caminham junto com a maturidade digital das instituições, sugerindo que a transformação digital é peça central para formar profissionais preparados para a sociedade tecnológica.

O QUE HÁ DE NOVO: Pesquisadores de instituições do Peru, Panamá e outros países latino-americanos analisaram, em uma amostra de 140 estudantes universitários de Colômbia, Panamá, Peru e Venezuela, como se relacionam três elementos: pensamento complexo, transformação digital e alfabetização em inteligência artificial. O estudo, de abordagem quantitativa, aplicou instrumentos validados internacionalmente para medir essas competências e utilizou correlações, regressões e testes comparativos entre países. Os resultados apontam forte associação positiva entre pensamento complexo e literacia em IA, mediada pelo nível de transformação digital percebido no contexto educacional.

COMO FUNCIONA: A pesquisa foi conduzida dentro do paradigma positivista, com desenho descritivo-correlacional. A amostra incluiu 35 estudantes de cada país (Colômbia, Panamá, Peru e Venezuela), selecionados por amostragem aleatória simples, o que buscou garantir representatividade básica do contexto universitário local. Os dados foram coletados por questionários padronizados aplicados a estudantes de graduação em instituições de ensino superior.

Para medir o pensamento complexo, os autores utilizaram o instrumento eComplexity, que avalia quatro dimensões: pensamento sistêmico, científico, crítico e inovador, em escala Likert de cinco pontos. A transformação digital foi capturada pelo questionário de Pettersson e colegas, também em cinco pontos, abrangendo digitalização de processos educacionais, adaptação tecnológica e uso estratégico de ferramentas. Já a alfabetização em IA foi medida com a escala de Wang et al., que considera consciência, uso, capacidade de avaliação e aspectos éticos em torno da IA, por meio de 12 itens em escala de sete pontos. A análise estatística combinou estatística descritiva, correlação de Pearson, modelos de regressão (incluindo regressão logística ordinal) e testes não paramétricos para comparar países.

INSIGHT CENTRAL: O estudo parte de uma premissa que está ganhando força na literatura: não basta introduzir tecnologias digitais ou ferramentas de IA nas universidades; é a articulação entre infraestrutura digital, formação crítica e uso consciente da IA que de fato potencializa o pensamento complexo dos estudantes. Em vez de tratar a IA como um recurso técnico isolado, os autores a posicionam como elemento de um ecossistema de transformação digital em que competências cognitivas avançadas, como análise sistêmica e pensamento inovador, são treinadas em diálogo com ferramentas inteligentes. Esse enquadramento desloca o debate de uma visão instrumental da tecnologia para uma lógica de integração curricular e pedagógica voltada à complexidade.

PRINCIPAIS RESULTADOS: Os dados mostram uma correlação positiva robusta entre pensamento complexo e alfabetização em IA (r = 0,62, p < 0,01), indicando que estudantes que se percebem mais capazes de lidar com problemas complexos também tendem a apresentar níveis mais altos de literacia em IA. Os autores identificam ainda que a transformação digital funciona como variável mediadora: no modelo de regressão, ela apresenta coeficiente significativo (β = 0,48, p < 0,01), sugerindo que ambientes institucionais digitalmente mais maduros favorecem simultaneamente o desenvolvimento de pensamento complexo e de competências em IA.

As distribuições de frequência apontam que, no conjunto da amostra, prevalecem níveis neutros ou baixos de pensamento complexo, alfabetização em IA e percepção de transformação digital, com médias globais em torno de faixas intermediárias das escalas. Um pseudo R² de Nagelkerke de 0,915 no modelo de regressão logística ordinal indica que pensamento complexo e literacia em IA explicam grande parte da variabilidade da percepção de transformação digital. Testes de Kruskal-Wallis não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre os quatro países, o que sugere desafios semelhantes na região: predominância de alfabetização em IA ainda baixa e maturidade digital moderada nas instituições.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para a sala de aula universitária, os resultados reforçam que a simples oferta de disciplinas de tecnologia ou o uso pontual de IA não garantem ganhos cognitivos relevantes. O que aparece como decisivo é a combinação entre um ambiente digitalmente estruturado e práticas pedagógicas que provoquem o estudante a analisar problemas multifacetados, integrar saberes e refletir criticamente sobre o uso da IA. Isso tem implicações diretas para o desenho curricular: cursos que articulam projetos interdisciplinares, uso de plataformas inteligentes e atividades de reflexão ética tendem a criar condições mais favoráveis para o desenvolvimento de pensamento complexo.

Do ponto de vista do trabalho docente e da gestão universitária, o estudo reforça que investir em transformação digital não se limita a adquirir sistemas ou migrar processos para o on-line. Envolve construir uma cultura de uso pedagógico da tecnologia, formar professores em inteligência artificial e reconfigurar processos acadêmicos com foco em competências transversais. A forte associação entre alfabetização em IA e pensamento complexo sugere que essas competências precisam ser tratadas como pilares da formação profissional, em linha com agendas como Educação 5.0 e as diretrizes da UNESCO sobre aprendizagem ao longo da vida. Ao mesmo tempo, o fato de a maioria dos estudantes ainda se situar em níveis baixos ou intermediários de literacia em IA acende um alerta para riscos de desigualdade: quem estuda em ambientes menos maduros digitalmente pode chegar ao mercado de trabalho em clara desvantagem frente a pares formados em ecossistemas digitais mais avançados.

SIM, MAS… (limitações e riscos): A pesquisa oferece evidências importantes, mas carrega limitações que precisam ser consideradas por gestores e formuladores de políticas. A amostra é relativamente pequena e restrita a universidades específicas em quatro países, o que limita a generalização dos resultados para toda a educação superior latino-americana. Além disso, o uso exclusivo de questionários de autorrelato captura percepções dos estudantes, não necessariamente o nível real de suas competências ou a efetiva maturidade digital das instituições.

Outro ponto crítico é que o estudo não considera variáveis moderadoras como acesso efetivo a infraestrutura tecnológica, origem socioeconômica, experiência prévia dos estudantes com ambientes digitais ou diferenças entre cursos presenciais e a distância. Esses fatores podem influenciar fortemente tanto a alfabetização em IA quanto o desenvolvimento de pensamento complexo. Do lado da implementação, a aposta na IA e na transformação digital sem estratégias de formação docente e sem diretrizes claras de ética e proteção de dados pode aprofundar desigualdades e incentivar usos superficiais ou automatizados de ferramentas, esvaziando justamente o tipo de raciocínio crítico que o estudo busca promover.

CONTEXTO E BASTIDORES: O trabalho dialoga com uma literatura crescente que vincula transformação digital, desempenho acadêmico e competências transversais. Estudos recentes citados pelos autores mostram correlações entre rendimento acadêmico e desenvolvimento de competências de raciocínio para a complexidade, sugerindo que currículos mais integrados à cultura digital tendem a melhorar resultados de aprendizagem. Ao mesmo tempo, pesquisas sobre alfabetização em IA, em diferentes países, reforçam que não basta ensinar a usar ferramentas: é preciso compreender como os sistemas funcionam, quais dados utilizam e quais impactos sociais produzem.

No cenário internacional, iniciativas como o modelo aberto de pensamento complexo e projetos de pesquisa aplicada em universidades latino-americanas vêm testando plataformas de IA para estimular ideação, resolução de problemas e trabalho colaborativo em temas como economia compartilhada ou sustentabilidade. Em paralelo, organismos como a UNESCO defendem que a digitalização e a IA sejam inseridas em uma perspectiva de aprendizagem ao longo da vida, com atenção à equidade, à ética e à inclusão. O estudo analisado se insere nesse movimento, ao mostrar que países com contextos socioeconômicos distintos na região compartilham desafios semelhantes para transformar a infraestrutura digital em ganhos concretos de pensamento crítico e inovação.

O QUE VEM DEPOIS: Os próprios autores indicam que próximas pesquisas devem incorporar variáveis contextuais para compreender melhor como fatores como a qualidade da conectividade, o apoio institucional, a formação prévia em tecnologia e o perfil socioeconômico dos estudantes modulam a relação entre IA, pensamento complexo e transformação digital. Estudos longitudinais, que acompanhem turmas ao longo de vários semestres, podem mostrar se o fortalecimento de competências digitais e de literacia em IA se traduz, no longo prazo, em melhorias sustentadas de desempenho acadêmico e inserção profissional.

Para redes de ensino superior e órgãos reguladores, a agenda de pesquisa abre caminho para políticas mais robustas de transformação digital educacional: definição de indicadores de maturidade digital institucional, programas sistemáticos de formação docente em IA, inclusão de competências de pensamento complexo em diretrizes curriculares e apoio específico a instituições com menor infraestrutura tecnológica, para evitar aprofundar a brecha digital. O desafio que se coloca é transformar a correlação identificada neste estudo em estratégias concretas de escala, capazes de fazer da IA um aliado para a formação integral, e não apenas mais uma camada de tecnologia sobre currículos tradicionais.

Fonte: El pensamiento complejo, la transformación digital y la IA en la educación superior

Fonte(s): http://www.scielo.org.bo/scielo.php?pid=S2616-79642025000201027&script=sci_arttext