Um estudo com 126 licenciandos em estágio supervisionado na Universidade de Adelaide testou o uso de IA generativa como um “placement buddy” (parceiro de estágio) para apoiar planejamento de aulas, produção de materiais e manejo de situações de tensão no cotidiano escolar. Os resultados apontam ganhos de eficiência e apoio ao bem-estar, mas também mostram que benefícios e conforto de uso variam por disciplina, contexto da escola e condições de suporte, reforçando a necessidade de formação em letramento em IA, orientação ética e políticas de equidade de acesso.
O QUE HÁ DE NOVO: Publicado na Australasian Journal of Educational Technology, o trabalho analisa uma intervenção em um componente de preparação para estágio (work-integrated learning) em cursos de formação inicial de professores, combinando atividades presenciais e recursos digitais com uso orientado de ferramentas como ChatGPT. A pesquisa reuniu survey e grupos focais e cruzou percepções com dados do estágio, incluindo o ICSEA (indicador socioeducacional das escolas), para entender o que impulsiona ou freia a aceitação e o uso de IA por licenciandos em situações reais de ensino.
COMO FUNCIONA: A intervenção ocorreu com uma coorte de 151 futuros professores no último ano, que fariam cinco semanas de estágio em escolas secundárias; 126 participaram efetivamente da pesquisa. Antes do estágio, eles passaram por seis seminários presenciais de três horas, apoiados por materiais online e atividades interativas (como cenários ramificados em H5P e colaboração em Miro), além de treino específico de letramento em IA e escrita de prompts com contas logadas no ChatGPT. Nos exercícios, os participantes elaboravam prompts para tarefas típicas do estágio, planejamento, diferenciação de atividades, produção de questões e, de modo sensível, mensagens profissionais e respostas a dilemas com mentores, e avaliavam os resultados à luz de referenciais profissionais australianos, com revisão por pares.
PRINCIPAIS RESULTADOS: No survey com 22 itens em escala Likert (1 a 7), os licenciandos relataram percepção positiva de utilidade e facilidade de uso da IA no estágio, com médias acima do ponto médio. Em linhas gerais, o apoio à autoconfiança para usar IA após a experiência foi o item mais alto (média 5,73), enquanto a familiaridade prévia com ferramentas de IA apareceu como o ponto mais fraco (4,73), sugerindo forte aprendizagem ao longo do curso e do estágio apesar de condições de suporte desiguais. Entre os usos, a percepção foi mais alta para comunicação por e-mail (média 5,40) e também positiva para planejamento e materiais (em torno de 5,2), enquanto estratégias de gestão de sala e resolução de conflitos ficaram ligeiramente abaixo, refletindo limites do “tempo real” e da leitura fina de dinâmicas humanas.
INSIGHT CENTRAL: O diferencial do estudo é tratar a IA generativa menos como “tutor de conteúdo” e mais como uma tecnologia de apoio à autogestão e à tomada de decisão do futuro professor em um ambiente de alta pressão, incluindo aconselhamento para lidar com incertezas, atritos e comunicação profissional durante o estágio. Essa ideia de “parceiro de estágio” ganha força justamente onde o suporte humano pode ser intermitente: quando mentores acumulam papéis de avaliadores e orientadores e o licenciando hesita em “incomodar” ou expor inseguranças, a IA aparece como um canal rápido, não julgador e sempre disponível para estruturar perguntas, organizar alternativas e reduzir ansiedade.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para a sala de aula e para a aprendizagem profissional do futuro docente, os achados sugerem que a IA pode reduzir o chamado “choque de realidade” do estágio ao ajudar a transformar teoria em ações concretas: rascunhos de planos, variações de atividades e perguntas, além de rotinas de reflexão após aulas difíceis. Para o trabalho do professor iniciante, o ganho de eficiência relatado se conecta a bem-estar e persistência na carreira, ao reduzir tempo em tarefas repetitivas e apoiar a escrita de comunicações formais, algo crítico em ambientes em que a relação com mentores e equipes é determinante. Ao mesmo tempo, o estudo reforça que o efeito não é homogêneo: condições de infraestrutura e normas culturais da escola (incluindo o quanto o uso é aceito) modulam se a IA vira ferramenta legítima ou “tabu”, com impacto direto na autonomia e na confiança do estagiário.
SIM, MAS…: A pesquisa também explicita riscos e limites relevantes para decisões de adoção. Primeiro, há questões de privacidade e proteção de dados: alguns participantes evitaram inserir informações de estudantes por incerteza sobre segurança, enquanto outros disseram ter internalizado regras de não compartilhar dados sensíveis, o que indica que políticas e treinamento precisam ser claros e verificáveis, não apenas “pressupostos”. Segundo, a utilidade percebida varia fortemente por área: licenciandos de Ciências, Geografia e Matemática reportaram benefícios mais altos, enquanto áreas como Línguas e Inglês foram mais céticas sobre a sensibilidade contextual da IA; em Computação, apesar de alta familiaridade, a utilidade foi menor, em parte porque a geração automática pode colidir com objetivos pedagógicos (por exemplo, aprender a programar). Por fim, como estudo de caso em uma única instituição com dados em grande medida autorrelatados, os resultados pedem replicação em outros sistemas e culturas escolares.
O QUE VEM DEPOIS: O artigo aponta implicações diretas para políticas e desenho curricular: programas de formação docente tendem a ganhar ao integrar letramento em IA e engenharia de prompts de forma alinhada a cada disciplina, em vez de uma capacitação genérica; e escolas e professores mentores também precisariam de preparo para orientar o uso responsável durante o estágio, reduzindo o descompasso entre o que a universidade ensina e o que o campo aceita. Em nível de sistema, a correlação entre respostas mais favoráveis e escolas com maior ICSEA sugere um risco de ampliação de desigualdades: sem acesso e infraestrutura mais uniformes, a IA pode virar mais um diferencial competitivo para quem já está em contextos favorecidos, tornando a equidade de acesso e de formação uma pauta central para a adoção responsável.