RESUMO: Universitários de programas de mestrado em tecnologia educacional demonstraram atitudes predominantemente favoráveis à inteligência artificial, sobretudo em suas crenças sobre a tecnologia e na disposição de utilizá-la. A dimensão ética, porém, ficou atrás das demais, enquanto experiências docentes, área de formação, país de estudo e confiança no próprio conhecimento técnico e pedagógico estiveram associadas a percepções diferentes, um sinal de que a adesão à IA precisa ser acompanhada por capacitação e diretrizes institucionais.
O QUE HÁ DE NOVO: O levantamento analisou 570 estudantes de mestrado de universidades no Equador (188 participantes), na Espanha (110) e na República Dominicana (272), todos vinculados a cursos relacionados à tecnologia educacional. A pesquisa examinou atitudes cognitivas, afetivo-emocionais, comportamentais e éticas diante da IA, além da intenção de uso, e adaptou ao ensino superior uma escala de atitudes estudantis, incorporando perguntas específicas sobre ética.
COMO FUNCIONA: Os participantes responderam a um questionário de 32 itens, em escala de concordância de sete pontos: sete itens trataram de comportamento, sete de cognição, nove de emoções e nove de ética. Também informaram características pessoais e acadêmicas, eventual atuação como docentes e uma autoavaliação de conhecimento técnico e de uso didático da IA. O desenho foi quantitativo, descritivo e não experimental; as respostas foram comparadas entre grupos e relacionadas entre si. A consistência interna do instrumento foi classificada como excelente, com alfa de Cronbach total de 0,96.
PRINCIPAIS RESULTADOS: As pontuações médias indicaram atitude geral positiva, com maior destaque para as dimensões cognitiva e comportamental e para a intenção de usar IA. A ética teve a menor avaliação entre os quatro componentes. Todas as dimensões se correlacionaram positivamente, mas a ligação mais forte envolveu cognição e comportamento (0,774), seguida da associação entre a dimensão afetivo-emocional e a intenção de uso (0,723). Já a relação entre ética e intenção de usar foi mais fraca (0,424), sugerindo que a disposição de adotar ferramentas não avança automaticamente no mesmo ritmo da reflexão sobre seus efeitos.
LIMITES E DIFERENÇAS: Não houve diferença estatisticamente relevante por gênero. Em contrapartida, país, área de estudo, experiência docente e autopercepção de domínio da IA influenciaram as respostas. Estudantes que também lecionavam tiveram atitudes mais favoráveis em todos os componentes; quem se atribuiu notas mais altas em conhecimento técnico e pedagógico também apresentou avaliações mais positivas. Houve variação por área, com menores escores recorrentes entre estudantes de ciências da saúde. Os achados, contudo, devem ser lidos como exploratórios: a amostra foi selecionada por conveniência, concentra-se em cursos de tecnologia educacional e se baseia em autorrelato, o que limita sua generalização para todo o ensino superior latino-americano.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: A pesquisa evidencia que universidades podem encontrar receptividade dos estudantes para integrar IA ao ensino, à produção acadêmica e ao trabalho futuro, especialmente quando a tecnologia é percebida como útil para a prática profissional. Mas a menor força da dimensão ética expõe uma lacuna relevante: usar sistemas generativos ou analíticos requer reconhecer vieses, verificar respostas, proteger dados pessoais, atribuir autoria e decidir quando a automação não é apropriada. Para gestores, a implicação é que políticas de uso não devem se limitar a liberar ou proibir ferramentas; precisam oferecer formação aplicada, apoio docente e regras claras de responsabilidade. Para reduzir desigualdades entre áreas e instituições, esses programas devem partir de níveis distintos de familiaridade tecnológica e conectar a IA a problemas reais de cada campo de formação.