Um estudo com 110 graduandos de uma universidade pública dos EUA investigou como estudantes entendem e priorizam dimensões de ética em IA ao usar o ChatGPT. Os resultados sugerem que eles não atribuem o mesmo peso a valores como justiça, privacidade e autonomia, e que atitudes de indiferença ou confiança excessiva na ferramenta podem dificultar políticas e práticas de integridade acadêmica no ensino superior.

O QUE HÁ DE NOVO: A pesquisa examinou, de forma empírica, a percepção de estudantes de graduação sobre ética em IA a partir do uso do ChatGPT, uma lacuna apontada pela literatura que costuma se apoiar mais em revisões de documentos e frameworks criados por especialistas. O trabalho foi conduzido com alunos de uma disciplina online de computação e tecnologia da informação (parte do currículo básico, voltada a letramento digital e impacto social), na qual metade da turma já tinha usado o ChatGPT antes do curso e os demais foram incentivados a interagir com o chatbot durante um módulo introdutório sobre IA e ética.

COMO FUNCIONA: Os autores adotaram como referência as cinco dimensões de ética em IA propostas por Floridi e Cowls, beneficência, não maleficência, justiça, autonomia e explicabilidade, e aplicaram um questionário com itens de escala Likert e justificativas abertas. Além de levantar dados demográficos (gênero, idade, ano do curso, proficiência tecnológica e experiência prévia com ChatGPT), o estudo combinou análises quantitativas (comparação das médias de concordância entre dimensões e regressões para verificar preditores demográficos) com análise de conteúdo das respostas abertas, com codificação por dois avaliadores e alta concordância (kappa 0,90).

PRINCIPAIS RESULTADOS: Os estudantes não concordaram de maneira uniforme com as cinco dimensões éticas: a dimensão “justiça” recebeu menor concordância, enquanto “autonomia” apareceu com concordância mais alta em comparação a justiça e explicabilidade. Ao buscar fatores associados a essas percepções, os modelos estatísticos indicaram efeitos modestos: apenas dois, entre cinco modelos, foram significativos, sugerindo que variáveis demográficas explicam pouco da variação nas respostas. Ainda assim, apareceram dois sinais relevantes: estudantes em anos mais avançados tenderam a concordar mais com preocupações ligadas à beneficência (associadas a usos desonestos), e alunas tenderam a concordar mais com a dimensão de justiça (ligada a vulnerabilidade de grupos específicos).

INSIGHT CENTRAL: A contribuição mais acionável do estudo está menos nos números e mais nas “racionalidades” que os alunos usam para aceitar ou rejeitar a agenda de ética em IA quando ela é apresentada no contexto do ChatGPT. Entre os motivos para concordar com preocupações éticas, sobressaem argumentos conectados a situações concretas do cotidiano acadêmico: risco de cola e plágio, possibilidade de informações imprecisas ou “mentiras brancas”, coleta de dados sem consentimento claro, insegurança de proteção, vieses e falta de acessibilidade, além de perda de habilidades e de engajamento no processo de aprendizagem por dependência da ferramenta.

SIM, MAS…: O estudo também evidencia barreiras de adoção que importam para gestores e docentes: parte dos estudantes rejeita discutir ética por considerar o tema “prematuro” (tecnologia ainda nova), “fútil” (problemas éticos existiriam em todo lugar), “já resolvido” (confiança de que o produto traz alertas e salvaguardas suficientes) ou desloca a responsabilidade integralmente para o usuário (“a tecnologia é neutra”). Essas quatro posturas apontam que diretrizes institucionais podem falhar se forem comunicadas apenas como um conjunto de princípios abstratos, sem exemplos, sem discussão orientada e sem conexão com decisões reais de estudo, avaliação e uso de dados.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para a sala de aula, os achados reforçam que “autonomia” tende a ser um argumento persuasivo para estudantes, tanto como valor a proteger (evitar dependência e degradação de habilidades) quanto como justificativa para relativizar regras (“depende de cada um”), o que exige desenho cuidadoso de avaliações e tarefas que tornem visível o processo, e não apenas o produto final. Para o trabalho docente, o estudo sugere que políticas de integridade e orientações de uso do ChatGPT ganham aderência quando traduzem princípios em comportamentos (por exemplo, o que conta como ajuda aceitável, como declarar uso, como checar fontes e como lidar com incerteza e alucinações), e quando abordam diretamente a percepção de que vieses e injustiças “não são problema meu”.

Do ponto de vista institucional, o resultado de menor saliência de “justiça” sinaliza um risco de implementação: ações de governança e formação que enfatizem apenas privacidade e cola podem negligenciar impactos distributivos, como acesso desigual, barreiras para estudantes com deficiência e reprodução de estereótipos em conteúdos gerados. Ao mesmo tempo, o fato de variáveis demográficas explicarem pouco da variação sugere que intervenções pedagógicas e comunicacionais, e não apenas segmentação por perfis, podem ser mais relevantes para mudar atitudes.

O QUE VEM DEPOIS: O próprio estudo reconhece limites importantes: amostra pequena e concentrada em uma única disciplina e instituição, o que reduz generalização; efeito estatístico limitado nas regressões; e um instrumento propositalmente curto, com poucas perguntas por dimensão ética, por se tratar de um primeiro passo. Como próximos passos, a agenda indicada inclui ampliar a coleta para múltiplas instituições e contextos, desenvolver escalas psicométricas mais robustas para medir ética em IA entre universitários e testar intervenções didáticas, como discussões guiadas por casos, modelagem de boas práticas e atividades de empatia (incluindo simulações), para verificar se é possível reduzir indiferença, calibrar confiança e aumentar a atenção a justiça e explicabilidade no uso de IA generativa.

Fonte: Undergraduate students’ perspectives of generative AI ethics