Um estudo qualitativo com licenciandos no Sul do Brasil analisou como futuros professores estão incorporando ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, ao planejamento e à produção acadêmica, e como percebem benefícios e riscos. A pesquisa conclui que, apesar do uso já ser cotidiano, falta discussão estruturada nos currículos de licenciatura, e oficinas formativas podem funcionar como ponte entre prática e reflexão crítica.

O QUE HÁ DE NOVO: A pesquisa investigou percepções de estudantes de licenciatura, em fase final de curso, após uma oficina formativa sobre IA generativa realizada no segundo semestre de 2024 em uma universidade comunitária de área urbana no Sul do país. Seis participantes de Educação Física, Letras/Português, Letras/Inglês e Pedagogia responderam a um questionário ao fim do encontro, relatando usos já consolidados de ferramentas como o ChatGPT e, ao mesmo tempo, apontando que o tema ainda aparece pouco, ou de forma superficial, na formação inicial.

COMO FUNCIONA: A iniciativa combinou um dispositivo formativo (oficina de cerca de quatro horas, com atividades orientadas por prompts e discussões sobre implicações pedagógicas) e um dispositivo de pesquisa (questionário com questões abertas e fechadas ao final). Os dados foram interpretados por análise de conteúdo, organizando as respostas em eixos temáticos. Além da experimentação prática, a oficina incluiu provocações sobre ética, autoria, criatividade, confiabilidade das respostas e riscos de “alucinações”, buscando que os licenciandos articulassem o uso da IA às decisões didáticas e à mediação docente.

PRINCIPAIS RESULTADOS: Todos os participantes afirmaram já ter usado IA generativa, principalmente o ChatGPT, com foco em tarefas diretamente ligadas ao fazer docente em formação: planejar aulas, criar atividades, estruturar projetos e organizar ideias para trabalhos acadêmicos. O grupo relatou familiaridade de moderada a alta com as ferramentas, mas descreveu uma contradição: a prática de uso avança mais rápido do que a formação institucional, já que a maioria percebe ausência de discussões sistemáticas sobre IA ao longo do curso.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para a sala de aula, o estudo indica que a IA já está influenciando a forma como futuros professores concebem planejamento e produção de materiais, com potencial de ampliar repertórios e acelerar a criação de propostas didáticas. Para o trabalho docente, os relatos mostram a IA como apoio para desbloquear ideias e diversificar estratégias, mas também expõem preocupações com dependência, perda de criatividade e padronização. Em termos de sistema, a lacuna formativa sugere um risco de adoção “na prática” sem critérios comuns de autoria, transparência e verificação, o que pode fragilizar tanto a integridade acadêmica quanto a qualidade do ensino se não houver orientação institucional.

SIM, MAS…: A evidência apresentada é de pequena escala e baseada em autopercepções, o que limita generalizações. Ainda assim, as tensões relatadas pelos licenciandos são típicas de cenários mais amplos: receio de comodismo intelectual, homogeneização de produções e dificuldade de distinguir aprendizagem real de textos gerados por IA, além do problema de respostas convincentes, porém incorretas. Outro desafio é de implementação: mesmo quando há interesse, sem orientação curricular e formação docente estruturada, o uso tende a ficar restrito ao “como fazer mais rápido”, e não ao “como ensinar e avaliar melhor”.

O QUE VEM DEPOIS: A pesquisa aponta como próximo passo incorporar a IA de modo transversal, crítico e contextualizado nos currículos de licenciatura, especialmente conectando o debate aos estágios supervisionados e às disciplinas pedagógicas. A leitura implícita é que oficinas funcionam como um formato viável para iniciar o letramento em IA, inclusive com foco em elaboração de prompts, critérios de checagem e discussões de autoria,, mas que o tema precisa sair do campo de iniciativas pontuais e ganhar continuidade institucional para acompanhar um uso que já é cotidiano entre futuros docentes.

Fonte: Licenciatura em tempos de inteligência artificial desafios formativos e percepções discentes