RESUMO: A preparação de futuros professores de educação infantil para usar inteligência artificial (IA) depende de uma combinação de conhecimento, confiança, percepção de utilidade e segurança emocional. Uma pesquisa realizada em Taiwan identificou que o letramento em IA eleva a prontidão apenas de forma indireta, ao fortalecer a confiança e a relevância percebida da tecnologia; já a ansiedade em relação à IA exerce efeito negativo. O resultado reforça que a formação docente para a pré-escola precisa ir além do ensino de ferramentas e conectar a tecnologia a práticas pedagógicas adequadas à primeira infância.
O QUE HÁ DE NOVO: Pesquisadores analisaram a prontidão percebida para IA de 194 estudantes de licenciatura em educação infantil, vinculados a sete universidades de Taiwan. A amostra, composta por 186 mulheres e oito homens, relatou utilizar recursos como ChatGPT, assistentes de voz e tradução por voz, em média, 2,57 horas por semana. O estudo adaptou para esse público um questionário originalmente desenvolvido para alunos mais jovens e examinou, de modo integrado, as relações entre letramento, ansiedade, confiança, relevância e disposição para incorporar IA.
COMO FUNCIONA: Os participantes responderam on-line a itens em escala de cinco pontos sobre conhecimentos e usos básicos de IA, receios sobre seus efeitos, capacidade percebida de aprender e usar a tecnologia, conexão dela com interesses e cotidiano, e abertura a novas aplicações. Um comitê de especialistas em educação infantil e ciências da aprendizagem ajustou a redação do instrumento ao contexto de formação docente. Após a validação, 17 itens distribuídos em cinco dimensões foram mantidos na análise.
O modelo estatístico testou nove relações previstas entre essas dimensões e avaliou se confiança e relevância funcionavam como elos entre letramento e prontidão. Os indicadores de consistência e validade do questionário ficaram acima dos parâmetros adotados no estudo, permitindo aos pesquisadores comparar quais fatores apresentavam associação mais forte com a disposição declarada para integrar IA à futura prática profissional.
PRINCIPAIS RESULTADOS: O letramento em IA teve associação positiva com confiança (coeficiente de 0,370) e, sobretudo, com relevância percebida (0,466). Por sua vez, relevância foi o preditor mais forte da prontidão (0,397), seguida pela confiança (0,196). A relação direta entre letramento e prontidão não foi estatisticamente significativa; os efeitos apareceram pelos caminhos indiretos via confiança (0,072) e via relevância (0,185). A ansiedade, embora tenha média de 2,46 em uma escala de cinco, abaixo do ponto neutro,, esteve associada a menor prontidão para IA (−0,157).
LIMITES E CUIDADOS: Os dados refletem percepções declaradas em um único momento, não comprovam causalidade nem medem a efetiva adoção de IA em salas de aula. A amostra é relativamente pequena e concentrada em universidades taiwanesas, o que limita generalizações para outros sistemas educacionais. Além disso, o indicador de letramento privilegiou conhecimentos e aplicações elementares, como reconhecimento de imagem, voz e tradução, sem capturar plenamente competências pedagógicas, éticas e críticas mais avançadas. Estudos futuros precisam acompanhar a evolução desses futuros docentes, diferenciar tipos de ansiedade e testar intervenções formativas em situações reais.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Na educação infantil, professores não precisam apenas operar recursos digitais: devem decidir se eles têm propósito pedagógico, são apropriados à idade, preservam a autonomia das crianças e respeitam privacidade e inclusão. A evidência sugere que cursos de formação inicial devem combinar fundamentos de IA com experiências práticas que mostrem usos concretos, por exemplo, apoio ao planejamento de atividades ou acessibilidade, e discutam claramente as limitações da tecnologia. Para gestores e formuladores de políticas, a implicação é que iniciativas de capacitação não devem ser avaliadas somente pelo conteúdo técnico oferecido, mas também por sua capacidade de construir segurança profissional, utilidade pedagógica e critérios éticos para uma adoção responsável.