Um estudo com 80 doutorandos na China comparou o uso de um chatbot de IA generativa com a troca de ideias entre pares para elaborar propostas de pesquisa e encontrou ganhos na qualidade do trabalho final, além de mudanças claras na dinâmica do diálogo. Os resultados sugerem que a IA pode ampliar repertório e estruturar raciocínios em tarefas complexas, mas também pode reduzir a participação ativa do estudante e exigir cuidados com qualidade de perguntas, verificação de informações e equilíbrio com interações humanas.

O QUE HÁ DE NOVO: Pesquisadores avaliaram, em um experimento quase controlado de três meses, como interações individuais com um chatbot de IA generativa influenciam a solução criativa de problemas (creative problem-solving, CPS) no ensino superior, comparando-as com diálogos entre estudantes. Participaram 80 alunos de doutorado de uma universidade chinesa (grupo experimental com 40 estudantes usando o Dou Bao, da ByteDance, e grupo controle com 40 estudantes discutindo com um colega), todos realizando a mesma tarefa: produzir uma proposta de pesquisa inovadora e viável.

COMO FUNCIONA: O desenho incluiu pré-teste com uma proposta anterior, treinamento de três horas (sobre CPS, elaboração de proposta e diálogo produtivo) e cinco sessões semanais de 30 minutos de interação, com temas típicos do processo de pesquisa (definição de tema, perguntas, revisão de literatura, desenho metodológico e originalidade). As conversas foram gravadas, transcritas e codificadas por um instrumento de análise de diálogo com seis dimensões (conhecimento prévio, expressão subjetiva, elaboração, coordenação, especulação e construção), além de análise sequencial para mapear padrões de “um tipo de fala levando a outro”. Ao final, os estudantes responderam questionário de aceitação de tecnologia (utilidade, facilidade de uso e intenção de uso) e entregaram uma nova proposta, avaliada por dois corretores independentes com alta concordância (Kappa 0,83).

PRINCIPAIS RESULTADOS: As interações com o chatbot exibiram mais falas baseadas em conhecimento e mais elaborações, enquanto os diálogos entre pares tiveram mais expressão subjetiva e emoção. Em termos quantitativos, houve diferenças significativas nas dimensões de utilidade percebida (p < 0,001), facilidade de uso (p < 0,05) e intenção de uso (p < 0,001) a favor do chatbot. No desempenho prático, a análise com controle do pré-teste indicou vantagem do grupo com IA na nota da proposta final (F = 15,058; p < 0,001), com tamanho de efeito considerado alto para o tipo de intervenção (η² parcial = 0,17).

INSIGHT CENTRAL: Mais do que “se” a IA ajuda, o estudo aponta “como” ela muda o processo cognitivo: o chatbot tende a responder com conhecimento prévio após quase qualquer iniciativa do estudante, e essas respostas frequentemente levam o aluno a pedir justificativas e explicações, criando uma trilha dialogal mais previsível e orientada a organizar informação e raciocínio. Já a conversa entre pares aparece mais variada, mas com maior chance de circularidade, isto é, permanecer no mesmo tipo de fala sem necessariamente avançar para sínteses, conexões ou construções mais cumulativas.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para cursos que exigem tarefas abertas e mal definidas, como projetos, desenhos de pesquisa e desafios interdisciplinares, a evidência reforça que chatbots podem funcionar como “andaimes” de aprendizagem: ajudam a decompor o problema, sugerir caminhos, explicitar critérios e acelerar a consolidação de referências e estruturas argumentativas. Ao mesmo tempo, o estudo sinaliza um risco pedagógico relevante: na interação com a IA, estudantes falaram menos e trouxeram menos opiniões e coordenações próprias, o que pode reduzir oportunidades de metacognição, debate e amadurecimento de posição, componentes importantes da formação em nível de pós-graduação.

SIM, MAS…: Os próprios participantes relataram que o chatbot pode oferecer informação desatualizada ou imprecisa, exigindo verificação crítica, e que a qualidade dos resultados depende de fazer boas perguntas (prompts). Além disso, a amostra veio de uma única universidade e o período foi relativamente curto, o que limita generalizações sobre efeitos de longo prazo e sobre outras áreas (como engenharias e ciências naturais). Os autores também destacam que chatbots tendem a ser reativos, pouco propensos a iniciar desafios e novas linhas de investigação, o que pode explicar parte da redução de participação do estudante.

O QUE VEM DEPOIS: A pesquisa sugere que os próximos testes devem ampliar o número de instituições e disciplinas e acompanhar turmas por períodos mais longos (por exemplo, um ano) para observar se os ganhos iniciais se mantêm e como a prática continuada com IA afeta autonomia intelectual. Para gestores e coordenadores, a implicação prática é desenhar usos complementares: empregar chatbots para expandir repertório, organizar literatura e estruturar planos, enquanto se preserva a interação entre pares e a mediação docente para fomentar julgamento, criatividade, posicionamento e questionamento, justamente os elementos que o diálogo com humanos tende a provocar com mais naturalidade.

Fonte: Interactions with generative AI chatbots: unveiling dialogic dynamics, students’ perceptions, and practical competencies in creative problem-solving