A rápida expansão da inteligência artificial na educação abre uma janela para acelerar a aprendizagem em países em desenvolvimento, mas o Banco Mundial alerta que, sem infraestrutura e investimento em professores, essa revolução pode aprofundar desigualdades já dramáticas em regiões como a América Latina e o Caribe.

O QUE HÁ DE NOVO: Em um episódio da série “Expert Answers”, o Banco Mundial reuniu a experiência de Jaime Saavedra, diretor de Desenvolvimento Humano para a América Latina e o Caribe e ex-ministro da Educação do Peru, para discutir como a IA vem sendo incorporada à educação na região. A conversa apresenta dados recentes da instituição sobre uma grave crise de aprendizagem, destaca nove tipos de inovações educacionais baseadas em IA identificadas pelo Banco Mundial e discute riscos e oportunidades dessa agenda em países de baixa e média renda, onde a maioria dos estudantes ainda não domina habilidades básicas de leitura e matemática.

COMO FUNCIONA: As iniciativas de IA mapeadas pelo Banco Mundial incluem desde tutores virtuais que acompanham o desempenho dos alunos em tempo real até sistemas que ajudam professores a preparar planos de aula personalizados, passando por mecanismos de alerta precoce que usam dados escolares para identificar quem corre maior risco de abandono. Nesses modelos, a IA processa grandes volumes de informações, como notas, frequência e registros de participação, para sugerir intervenções específicas, apoiar o planejamento pedagógico e oferecer exercícios adaptados ao nível de cada estudante, sempre com a mediação de educadores.

Nesse desenho, alunos interagem com a IA em atividades de reforço, exercícios em plataformas digitais ou apoio individualizado fora do horário de aula, enquanto professores usam as ferramentas principalmente para preparar aulas, acompanhar o progresso da turma e identificar lacunas de aprendizagem mais rapidamente. A própria adoção dessas soluções depende de uma cadeia de decisões de gestão: redes de ensino precisam garantir conectividade e dispositivos, escolas organizam rotinas de uso em sala, e autoridades definem regras claras para privacidade de dados e limites para o uso de ferramentas generativas, como chatbots baseados em modelos de linguagem.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: A análise de Saavedra parte de um cenário preocupante: antes da pandemia, mais da metade das crianças de 10 anos na América Latina já não conseguia ler e compreender um texto simples; após a crise sanitária, esse índice ultrapassa 70% na região. Em matemática, cerca de três quartos dos estudantes do ensino médio não atingem o nível mínimo esperado, e a distância em relação a países da OCDE equivale a aproximadamente cinco anos de escolaridade. Em um contexto em que se exige que os jovens concluam a educação básica com competências digitais, socioemocionais e técnicas, a IA surge como ferramenta potencial para acelerar a recuperação das aprendizagens fundamentais.

Ao mesmo tempo, o episódio reforça que o uso da IA pode reconfigurar o trabalho docente. Em vez de substituir professores, as tecnologias são apresentadas como instrumentos para tornar a interação humana mais produtiva: apoiar diagnósticos rápidos, diversificar estratégias didáticas e liberar tempo do professor para atividades de maior valor pedagógico, como feedback qualitativo, incentivo à criatividade e desenvolvimento do pensamento crítico. Para gestores de sistemas educacionais, a promessa é combinar dados em larga escala e algoritmos para orientar políticas de recuperação de aprendizagem, identificar escolas mais vulneráveis e acompanhar resultados com maior precisão.

INSIGHT CENTRAL: O ponto central defendido por Saavedra é que a IA não deve ser vista apenas como uma solução tecnológica, mas como parte de uma estratégia de política educacional que coloca o professor no centro e enfrenta a desigualdade de acesso. Em vez de imaginar cenários em que algoritmos substituem docentes, o Banco Mundial propõe encarar a IA como alavanca para que os professores cumpram melhor seu papel de garantir que todos os alunos aprendam, especialmente em contextos onde muitos chegam ao ensino médio sem dominar leitura e numeracia básicas.

Essa abordagem desloca o foco do fascínio com ferramentas isoladas para a construção de condições estruturais: infraestrutura digital mínima, conectividade de qualidade e formação continuada para que educadores possam apropriar-se criticamente das tecnologias. Ao tratar a IA como responsabilidade coletiva, e não como uma “esperança” abstrata, a mensagem é que cabem a governos, redes e escolas decisões concretas sobre investimento, regulação e desenho pedagógico, sob pena de a revolução tecnológica passar ao largo da maioria dos estudantes.

PRINCIPAIS RESULTADOS: Os dados mencionados no programa retratam uma região em que a aprendizagem avança de forma lenta e desigual. Países como Brasil e Peru registraram melhora em avaliações internacionais na última década, e há sinais positivos em sistemas como o argentino, mas o ritmo é considerado insuficiente para reduzir, em prazo razoável, a distância em relação às nações mais ricas. Mantida a trajetória atual, seriam necessárias décadas para fechar o gap, enquanto as demandas sobre a escola, em termos de habilidades digitais, socioemocionais e técnicas, só aumentam.

Do lado da inovação, o mapeamento do Banco Mundial de nove experiências de IA na educação mostra um ecossistema em rápida expansão, com soluções que já chegam a milhões de estudantes em todo o mundo, ainda que de forma desigual. Ao mencionar casos de escolas em grandes cidades latino-americanas onde todos os alunos usam ferramentas como ChatGPT, em contraste com outras, a poucos quilômetros de distância, sem qualquer conectividade, Saavedra ilustra empiricamente uma tendência: a IA tende a beneficiar primeiro redes e escolas com melhores condições prévias, ampliando a diferença de resultados entre grupos socioeconômicos.

SIM, MAS… (limitações e riscos): O alerta mais contundente do Banco Mundial diz respeito à desigualdade. Embora a IA tenha potencial para democratizar o acesso a conteúdos de qualidade, o uso efetivo depende de infraestrutura, dispositivos, conectividade e preparo docente, elementos desigualmente distribuídos em países de baixa e média renda. O risco, enfatizado por Saavedra, é que escolas ricas aprofundem sua vantagem ao se apropriar rapidamente de tutores virtuais e ferramentas generativas, enquanto escolas pobres fiquem ainda mais para trás, sem acesso nem à internet básica.

Outro ponto sensível é o desenho das próprias tecnologias. Muitos sistemas de IA em educação são desenvolvidos no Norte global e podem não refletir contextos culturais, linguísticos e curriculares de países em desenvolvimento, o que traz riscos de viés, baixa relevância pedagógica e reforço de estereótipos. Há ainda preocupações com a erosão do pensamento crítico, caso estudantes passem a depender de respostas prontas de chatbots, sem mediação adequada. Para enfrentar esses riscos, o episódio sugere que países adotem políticas claras de regulação, proteção de dados e adaptação local das ferramentas, ao mesmo tempo em que investem em formação crítica de professores e estudantes sobre o uso responsável da IA.

O QUE VEM DEPOIS: A discussão conduzida pelo Banco Mundial aponta uma agenda de próximos passos para governos e redes de ensino. De um lado, é necessário ampliar investimentos em conectividade escolar e infraestrutura digital, especialmente em áreas e escolas mais vulneráveis, para evitar que a adoção da IA aprofunde a exclusão educacional. De outro, será preciso desenvolver políticas de formação docente que integrem competências digitais, pedagógicas e éticas, preparando professores para usar a IA como aliada na recuperação de aprendizagens e no desenvolvimento de competências para o trabalho do futuro.

Na perspectiva de política pública, a mensagem é que a IA não pode ser tratada como um acessório opcional, mas como um componente estratégico da resposta à crise de aprendizagem. Isso inclui apoiar pesquisas aplicadas sobre o impacto de diferentes modelos de IA na educação, promover pilotos monitorados em redes públicas, produzir evidências sobre o que funciona em contextos de alta vulnerabilidade e construir marcos regulatórios que preservem a centralidade do professor, protejam estudantes e orientem o setor privado. Em suma, o uso de IA na educação será tão transformador quanto forem as escolhas de investimento e governança feitas hoje pelos responsáveis pelos sistemas educacionais.

Fonte(s): Artificial Intelligence Revolution in Education: What You Need to Know | World Bank Expert Answers