Uma pesquisa internacional ouviu profissionais do ensino superior sobre o uso de avatares sintéticos em conteúdos de ensino. Embora vejam possibilidades para acessibilidade e produção de materiais, os participantes demonstraram cautela diante do risco de substituir relações humanas, usar a imagem de docentes sem proteção adequada e ampliar desigualdades entre instituições.
O QUE HÁ DE NOVO: Pesquisadores realizaram um levantamento exploratório com 193 profissionais do ensino superior de 25 países, entre docentes, pesquisadores e gestores, para investigar sua disposição de usar representações digitais geradas por inteligência artificial (IA) na educação universitária. A maior parcela das respostas veio da Austrália, seguida por Singapura, Reino Unido e Estados Unidos.
COMO FUNCIONA: Os avatares analisados podem reproduzir a imagem ou a voz de uma pessoa para apresentar materiais didáticos, como videoaulas. Após receberem uma explicação e assistirem a um exemplo em vídeo, os participantes responderam a um questionário on-line sobre sua intenção de empregar a tecnologia no ensino e fatores como facilidade de uso, benefícios esperados e custo percebido. Perguntas abertas permitiram examinar oportunidades e preocupações; 173 respostas entraram na análise quantitativa, enquanto 157 pessoas descreveram possíveis benefícios e 166 apontaram desafios.
PRINCIPAIS RESULTADOS: A intenção média de usar avatares sintéticos nas aulas foi de 41,55 em uma escala de zero a 100, com ampla variação entre os respondentes. No modelo estatístico, o fator mais fortemente associado a essa intenção foi a expectativa de que a tecnologia fosse interessante ou agradável de usar, mesmo quando considerados os demais fatores avaliados. O modelo explicou 75% da variação das intenções declaradas, mas não mediu uso efetivo nem melhora na aprendizagem.
As respostas abertas mostraram uma divisão: alguns participantes imaginaram materiais traduzidos, vozes mais acessíveis e vídeos atualizados com menos trabalho; outros recearam que universidades reutilizassem a imagem e o conteúdo de professores para reduzir custos, enfraquecendo o vínculo com os estudantes. Surgiram ainda dúvidas sobre como distinguir uma representação sintética de um registro autêntico e se o investimento traria benefícios educacionais proporcionais.
LIMITES E CUIDADOS: A pesquisa reuniu voluntários por redes profissionais e listas institucionais, o que pode ter atraído pessoas com opiniões especialmente fortes. Quase 80% das respostas vieram de quatro países, limitando a generalização dos achados. O questionário também usou o termo “deepfake”, cuja conotação negativa pode ter influenciado as respostas. A associação observada entre interesse e intenção de uso, portanto, não permite concluir que avatares melhorarão aulas ou substituirão docentes.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para os estudantes, uma versão sintética de um professor pode ampliar o acesso a materiais em outros idiomas, mas exige transparência para que ninguém confunda conteúdo gerado com uma fala real. Para docentes e gestores, a decisão envolve mais que eficiência: requer consentimento para o uso de imagem e voz, proteção da autonomia profissional e critérios que impeçam a tecnologia de aprofundar diferenças entre universidades com recursos desiguais. Os pesquisadores recomendam políticas institucionais, formação em IA e projetos-piloto que avaliem ganhos de aprendizagem antes de uma adoção ampla; estudos futuros deverão incluir a experiência dos estudantes e acompanhar os efeitos ao longo do tempo.