Uma revisão de 59 estudos sobre o uso do ChatGPT no ensino superior de programação identifica oportunidades para oferecer ajuda imediata e feedback aos estudantes, mas também riscos para a aprendizagem autônoma e a integridade acadêmica. O levantamento indica que incorporar a ferramenta aos cursos exige atividades que valorizem o raciocínio por trás do código, e não apenas a entrega de soluções.

O QUE HÁ DE NOVO: Pesquisadores reuniram estudos publicados entre novembro de 2022 e janeiro de 2025 sobre ChatGPT em disciplinas universitárias de programação. O trabalho organiza uma literatura ainda dispersa em sete áreas, entre elas assistência à escrita de código, avaliação automatizada, desempenho dos estudantes e integridade acadêmica. Trata-se de um mapeamento das pesquisas disponíveis, não de um experimento que mede, por si só, o efeito da ferramenta em sala de aula.

COMO FUNCIONA: Nos estudos analisados, estudantes interagem com o ChatGPT para pedir explicações de conceitos, localizar erros, comparar alternativas e melhorar a legibilidade de programas; docentes também examinam seu uso para elaborar atividades e comentar exercícios. Para construir a revisão de escopo, os pesquisadores buscaram artigos em cinco bases acadêmicas, encontraram 396 registros e, após remover duplicatas e aplicar os critérios de seleção, incluíram 59 trabalhos. Eles classificaram tanto os usos educacionais quanto os métodos empregados nas pesquisas, que incluem experimentos, questionários, entrevistas e observações.

PRINCIPAIS RESULTADOS: O uso como assistente de programação foi o foco de 13 estudos; outros dez investigaram avaliação e feedback automatizados, enquanto sete se concentraram em resultados de aprendizagem. Em conjunto, os trabalhos relatam ajuda na depuração, explicações adaptadas às dúvidas dos alunos e respostas mais rápidas sobre seus erros. A evidência, porém, não aponta um ganho uniforme: há registros de código incorreto ou inadequado gerado pela IA e de estudantes iniciantes que podem confiar demais nas sugestões recebidas. Rapidez para concluir uma tarefa, portanto, não equivale necessariamente a domínio dos conceitos.

LIMITES E CUIDADOS: A revisão inclui apenas pesquisas em inglês, publicadas em periódicos ou conferências e centradas especificamente no ChatGPT, o que restringe sua aplicação a outras ferramentas. Muitos estudos partiram de amostras pequenas ou de uma única instituição, e a variedade de métodos dificulta comparar resultados. Essas características impedem concluir, com base no conjunto analisado, que os benefícios observados persistem ao longo de um curso ou se repetem em diferentes contextos educacionais.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para o estudante, uma resposta imediata pode destravar um exercício; para o professor, pode abrir espaço para dedicar mais atenção às dificuldades conceituais. Mas, se a avaliação considerar apenas o programa entregue, torna-se mais difícil distinguir uma solução compreendida de uma apenas reproduzida. Os pesquisadores recomendam combinar feedback da IA com avaliação humana e pedir que alunos expliquem, anotem e defendam suas escolhas. Instituições também precisam definir regras de uso, formar docentes e considerar diferenças de acesso às ferramentas para não ampliar desigualdades.

PRÓXIMOS PASSOS: O levantamento propõe pesquisas mais longas e conduzidas em várias instituições, capazes de acompanhar o desenvolvimento das habilidades de programação para além de tarefas isoladas. Comparações entre iniciantes e estudantes avançados, versões gratuitas e pagas e modalidades presenciais e on-line podem orientar decisões curriculares mais precisas. Até lá, a adoção mais prudente é tratar o ChatGPT como apoio à investigação e à revisão do código, preservando oportunidades para que o aluno resolva problemas por conta própria.

Fonte: ChatGPT in computer programming education: A review of current literature and applications