Um estudo publicado em 2025 compara como Egito e Marrocos estão incorporando inteligência artificial na educação, mostrando que a convergência com padrões internacionais convive com adaptações locais, inclusive com referências a princípios éticos islâmicos. A análise, baseada em dezenas de documentos de política pública, aponta caminhos distintos: o Egito aposta em digitalização centralizada e métricas de desempenho; o Marrocos prioriza inclusão, identidade cultural e redução de desigualdades, mas enfrenta desafios de escala, infraestrutura e governança de dados.
O QUE HÁ DE NOVO: A pesquisa examina, de forma comparativa, as estratégias nacionais de IA aplicada à educação em Egito e Marrocos, dois casos pouco explorados no debate internacional, mais centrado em Europa e EUA. O trabalho analisa 66 documentos publicados entre 2018 e 2025 (planos, relatórios de organizações multilaterais, textos legais e materiais de comunicação) para mapear como pressões externas, redes profissionais e discursos globais influenciam reformas educacionais com IA, e como esses modelos são “traduzidos” para prioridades domésticas.
COMO FUNCIONA: O estudo usa o arcabouço de “isomorfismo institucional” para identificar três forças de convergência em políticas públicas: pressões coercitivas (por exemplo, exigências de financiadores e organismos internacionais), miméticas (imitação de modelos considerados bem-sucedidos) e normativas (difusão de padrões por redes profissionais e comunidades de especialistas). A partir de uma grade de codificação, os documentos foram lidos e classificados segundo indicadores como presença de órgãos centrais de governança, alinhamento a metas e benchmarks internacionais, adoção de “palavras de ordem” globais (como “competências do século 21” e “aprendizagem ao longo da vida”), programas de capacitação docente e, de modo específico, menções a referenciais éticos islâmicos como a maqāṣid al-sharīʿah.
PRINCIPAIS RESULTADOS: A contagem de ocorrências codificadas sugere que as dinâmicas normativas predominam no conjunto analisado (quase metade das marcações), seguidas das coercitivas e, por último, das miméticas. No recorte por país, o Egito concentra mais sinais de coerção, associados a reformas orientadas por financiamento e por metas verificáveis, e também forte presença de normas transnacionais (referências a marcos como ODS, Unesco e redes regionais). O Marrocos aparece com distribuição mais equilibrada entre os três mecanismos e com maior ênfase discursiva em equidade e adequação cultural. Em ambos os casos, há registros recorrentes de alinhamento a vocabulários globais, mas com lacunas na explicitação de como tais conceitos se convertem em mudanças pedagógicas consistentes.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: Para gestores e formuladores de política, a comparação ajuda a separar duas camadas que costumam ser misturadas no debate sobre IA: adoção tecnológica e transformação educacional. O caso egípcio mostra como a IA pode ser incorporada por meio de infraestrutura centralizada, monitoramento de desempenho e modernização de credenciais, o que tende a favorecer escala e padronização, mas pode deixar em segundo plano desigualdades internas e diferenças regionais de conectividade e recursos. Já o caminho marroquino sugere que a legitimidade social da IA na educação pode depender de desenho inclusivo, sensível a idioma, identidade e valores locais, o que é particularmente relevante em sistemas marcados por pluralidade cultural e por assimetrias socioeconômicas.
Ao mesmo tempo, a pesquisa reforça que pressões internacionais podem acelerar modernização e ampliar acesso a ferramentas (como plataformas adaptativas, credenciais digitais e propostas de aprendizagem ao longo da ciclo de vida), mas também induzem uma lógica de conformidade: indicadores, verificação de entregas e modelos de governança “importados” podem orientar prioridades mais pela prestação de contas do que por necessidades pedagógicas. Para escolas e redes, isso se traduz em escolhas concretas: investir em dados e dashboards de desempenho pode trazer visibilidade e gestão, porém exige políticas robustas de governança de dados, formação docente e mecanismos para evitar que métricas estreitas substituam objetivos educacionais mais amplos.
SIM, MAS…: O estudo reconhece limites típicos de pesquisas baseadas em documentos: nem todos os acordos e memorandos estão disponíveis integralmente, e parte do material vem de comunicados e textos de divulgação, que tendem a enfatizar intenção e narrativa. Também há assimetria na disponibilidade de relatórios entre os países, o que pode tornar alguns mecanismos mais “visíveis” em um caso do que em outro. Além disso, a identificação de referências éticas, especialmente as ligadas a tradições islâmicas, pode ser indireta e embutida em linguagem institucional, exigindo cautela para não confundir enquadramento discursivo com prática efetiva.
Outra ressalva central é a distância entre a promessa da IA e as condições de implementação. A pesquisa menciona desafios éticos e de infraestrutura que limitam escalabilidade e inclusão: conectividade desigual, capacidades institucionais para operar sistemas de dados, e tensões entre modernização e preservação de valores. Em termos educacionais, essas tensões aparecem em perguntas práticas ainda pouco resolvidas em muitos sistemas: quem valida a qualidade de sistemas de tutoria inteligente? Como garantir transparência e contestação de recomendações automatizadas? Como proteger dados de estudantes em ambientes altamente monitorados?
O QUE VEM DEPOIS: O trabalho aponta que o próximo passo para consolidar evidências é sair do plano estratégico e acompanhar a implementação: como professores são formados e apoiados no uso de IA, como estudantes respondem a sistemas adaptativos, e quais efeitos surgem na equidade (por exemplo, entre áreas urbanas e rurais). A agenda também inclui aprofundar o papel de referenciais éticos locais, como a maqāṣid al-sharīʿah, para entender se funcionam como “verniz” legitimador ou se geram critérios concretos de design, governança e prestação de contas em políticas de IA na educação.
Fonte: Strategic horizons of AI in education: A comparative analysis of Morocco and Egypt