A publicação do primeiro volume de “Desafios éticos na organização do conhecimento”, ligado ao VII Congresso ISKO Espanha e Portugal, consolida um campo de debate que cruza ética, inteligência artificial, organização do conhecimento e políticas de informação, e oferece alertas diretos para quem projeta sistemas educacionais baseados em dados e IA: a forma como classificamos, indexamos e tornamos o conhecimento visível é sempre um ato político, com potenciais efeitos de inclusão, exclusão e injustiça epistêmica.
O QUE HÁ DE NOVO: O Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM), em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto e a Universidad de Zaragoza, publicou em acesso aberto o Volume I de “Desafios éticos na organização do conhecimento”, que reúne textos do VII Congresso ISKO Espanha e Portugal/ XVII Congreso ISKO España realizado em novembro de 2025. A obra, revisada por pares em regime de double-blind review, traz contribuições de pesquisadores de diversos países ibero-americanos e europeus, com forte presença de trabalhos sobre Inteligência Artificial, hermenêutica digital, injustiça epistêmica e epistemicídio em sistemas de organização do conhecimento que sustentam bibliotecas, arquivos, plataformas digitais e serviços de informação.
Além de consolidar a agenda de ética na organização do conhecimento, o livro dá centralidade inédita à Inteligência Artificial Generativa, dedicando-lhe uma secção específica com 14 textos que vão de reflexões teóricas a estudos de caso em indexação automatizada, sistemas de recomendação, jornalismo automatizado, tesauros e classificação arquivística orientada à IA. Com isso, a publicação se torna uma referência estratégica para universidades, sistemas de bibliotecas, arquivos, museus e formuladores de políticas educacionais que começam a incorporar modelos de IA em gestão de acervos, recursos educacionais abertos e plataformas de aprendizagem.
COMO FUNCIONA: A obra nasce articulada a uma infraestrutura de pesquisa e formação: o capítulo ibérico da International Society for Knowledge Organization (ISKO), criado em 2013, e o grupo “Informação, Comunicação e Cultura Digital” (ICCD) do CITCEM. O congresso que a origina foi concebido em torno de quatro eixos, ética na teoria e nas práticas de organização do conhecimento; Inteligência Artificial Generativa; inclusão e diversidade; e utilizadores e sistemas, e cada eixo deu origem a um conjunto de trabalhos agora sistematizados em capítulos. No caso específico da IA, os textos analisam tanto algoritmos de classificação e indexação quanto grandes modelos generativos usados para produzir descrições, recomendações e visualizações a partir de grandes volumes de dados.
O volume combina abordagens filosóficas, como a proposta de “hermenêutica digital” de Alberto Romele, que trata a IA como máquina de classificação e criação de mundos, com investigações empíricas, como estudos sobre neutralidade na representação de assuntos por bibliotecários, efeitos da IA no jornalismo, indexação de prontuários analógicos, ou implantação de sistemas algorítmicos em arquivos e bibliotecas espanholas. Em paralelo, artigos como o de Thiago Ferreira de Oliveira, José Augusto Chaves Guimarães e José Augusto Bagatini aproximam a organização e representação do conhecimento de conceitos da epistemologia social, como injustiça epistêmica e epistemicídio, analisando como instrumentos de classificação, tesauros e linguagens documentais podem apagar ou distorcer vozes, sobretudo quando integrados a infraestruturas digitais e educacionais.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A EDUCAÇÃO: A centralidade dada à IA e à ética da classificação neste volume toca diretamente a forma como escolas, universidades e sistemas de avaliação estruturam o acesso ao conhecimento. Em ambientes educacionais fortemente apoiados em bibliotecas digitais, bases de dados, plataformas de conteúdo e sistemas de recomendação, quem define as categorias, os descritores e os filtros, seja um bibliotecário, seja um modelo generativo, influencia o que estudantes conseguem encontrar, com quem dialogam e quais perspectivas permanecem invisíveis. A hermenêutica digital proposta por Romele, ao tratar algoritmos como agentes interpretativos, chama a atenção para o fato de que esses sistemas não apenas “procuram” conteúdos, mas organizam aquilo que é considerado relevante, confiável ou periférico para a aprendizagem.
Ao mesmo tempo, os debates sobre injustiça epistêmica e epistemicídio em organização do conhecimento funcionam como alerta para currículos, repositórios institucionais e bases de recursos educacionais abertos: se instrumentos de indexação perpetuam visões eurocêntricas, masculinas, brancas ou heteronormativas, a IA treinada sobre esses dados tende a ampliar o viés, automatizando exclusões. Para o trabalho docente e a gestão educacional, isso significa que adoção de soluções de IA em bibliotecas escolares, ambientes virtuais de aprendizagem ou sistemas de monitoramento não pode ser tratada como mera inovação técnica. Exige governança ética, revisão crítica de taxonomias e ontologias, e participação ativa de comunidades marginalizadas na definição de descritores, categorias e políticas de dados, sob risco de reforçar desigualdades de acesso, representação e reconhecimento acadêmico.
INSIGHT CENTRAL: Um fio condutor do volume é a recusa explícita da ideia de neutralidade na organização do conhecimento, sobretudo quando mediada por IA. Romele caracteriza a IA como “máquina de classificação e criação de mundos”, destacando que cada modelo, conjunto de dados ou sistema de recomendação constrói um “imaginário de dados”, um recorte do mundo apresentado como natural, contínuo e apolítico. Ao trazer para o centro a noção de hermenêutica digital, ele propõe que a ética em IA não se limite a checklists de transparência ou fairness, mas inclua a capacidade de “reabrir” o processo interpretativo: tornar visíveis as escolhas de classificação, permitir contestação e acolher múltiplas leituras de uma mesma realidade.
Essa chave hermenêutica dialoga diretamente com a discussão de injustiça epistêmica na organização e representação do conhecimento. Ao mostrar como sistemas “universais” de classificação podem suprimir saberes e experiências, não por erro pontual, mas por desenho estrutural,, os autores defendem uma ética transcultural de mediação, que desloca o foco do “cumprimento de normas técnicas” para o enfrentamento de relações de poder. Em contextos educacionais, isso abre espaço para pensar repositórios, catálogos, tags de plataformas e rubricas de avaliação não como meras ferramentas neutras, mas como arenas de disputa simbólica nas quais estudantes, docentes e comunidades podem, e devem, intervir coletivamente.
PRINCIPAIS RESULTADOS: Ainda que o volume reúna sobretudo ensaios teóricos e análises críticas, alguns resultados se destacam pela relevância operacional para instituições educacionais. Estudos relatados na secção de ética na indexação identificam percepções de bibliotecários quanto à suposta “neutralidade” na representação de assuntos, revelando tensões entre o uso de linguagens documentais padronizadas e a necessidade de representar identidades de gênero, experiências de mulheres e comunidades racializadas de forma não estigmatizante. Outros trabalhos documentam como categorias e termos de sistemas internacionais de classificação, quando aplicados sem adaptação, acabam reforçando hierarquias coloniais de saber, com efeitos práticos no acesso a materiais por parte de estudantes e pesquisadores.
Na parte dedicada à IA, artigos que tratam de indexação automatizada, sistemas de recomendação e aplicações de IA generativa em arquivos e bibliotecas relatam, de forma convergente, que ganhos de eficiência trazem consigo novos pontos cegos: erros sistemáticos em descritores associados a grupos minoritários, replicação de estereótipos visuais em imagens geradas por IA e dificuldade em explicar, aos utilizadores, por que determinados conteúdos são priorizados. Em paralelo, o estudo sobre tendências de publicação em IA e Ciência da Informação mostra uma explosão de trabalhos sobre uso de IA em organização do conhecimento, mas com concentração geográfica e temática que tende a reproduzir agendas do Norte Global, o que reforça o alerta de que a própria pesquisa que orienta implementações educativas é marcada por assimetrias epistêmicas.
SIM, MAS…: A leitura de conjunto também evidencia limites e riscos que gestores educacionais precisam considerar ao transpor essas reflexões para políticas e projetos. Muitos dos textos operam em contextos acadêmicos e de pesquisa bem estruturados, com acesso a financiamento, equipas multidisciplinares e redes internacionais, cenário distante da realidade de grande parte das escolas públicas e instituições de pequena escala, especialmente no Sul Global. Há o risco de que o discurso sofisticado sobre hermenêutica digital e injustiça epistêmica permaneça restrito a círculos especializados, enquanto as decisões práticas de adoção de IA em educação são tomadas principalmente com base em critérios de custo e conveniência tecnológica.
Além disso, o próprio movimento de crítica ao universalismo pode ser cooptado se não vier acompanhado de mecanismos concretos de redistribuição de poder e recursos. Revisar vocabulários controlados, por exemplo, exige tempo, formação e participação comunitária, o que implica custos financeiros e políticos. Em ambientes educacionais pressionados por metas de desempenho e cortes orçamentários, há o perigo de que soluções de IA sejam implementadas sem a camada hermenêutica e participativa defendida pelos autores, aprofundando a distância entre o ideal de uma “infraestrutura interpretativa” e a prática de infraestruturas fechadas, proprietárias e opacas.
O QUE VEM DEPOIS: O volume aponta uma agenda clara de pesquisa e ação para os próximos anos, com forte implicação para o campo educacional. De um lado, há uma chamada à experimentação com “infraestruturas interpretativas” que tornem classificações, taxonomias e decisões algorítmicas objetos de debate contínuo entre estudantes, professores, bibliotecários e comunidades, algo que pode se traduzir em laboratórios de dados críticos, oficinas de reclassificação de acervos, revisão participativa de descritores e currículos que integram literacia em IA e ética da informação. De outro, os textos sugerem a necessidade de ampliar empiricamente o mapeamento de injustiças epistêmicas e práticas de epistemicídio em diferentes níveis de ensino, países e tipos de instituição, incluindo contextos indígenas, periféricos e de educação básica.
Em termos de políticas públicas, a obra reforça que regulações nacionais sobre IA na educação, planos de educação digital e estratégias de ciência aberta precisam ir além de diretrizes genéricas de proteção de dados ou combate à desinformação. Será necessário incorporar, em leis, normas e financiamentos, requisitos de transparência classificatória, participação de comunidades afetadas na definição de ontologias e vocabulários, e incentivos à produção de dados e modelos treinados em perspectivas plurais. Para formuladores de política, gestores de redes de ensino e lideranças acadêmicas, o recado é direto: sem enfrentar a dimensão hermenêutica e política da organização do conhecimento mediada por IA, qualquer projeto de inovação educacional corre o risco de sofisticar a tecnologia e empobrecer o pluralismo epistêmico.
Fonte(s): Desafios éticos na organização do conhecimento. Volume I